‘My Woman’ confirma o talento descomunal de Angel Olsen


Angel Olsen Foto

Uma das mais aclamadas artistas do novo Folk Rock americano, Angel Olsen é dona de uma voz exótica, aparência angelical e estilo misterioso. Letrista habilidosa, ela sabe combinar manifestos feministas com enredos misteriosos, passionais e cativantes. No início da carreira, em Chicago, seu estilo era o Folk tradicional e acústico, mas com o tempo ela incorporou uma banda completa e seu segundo álbum (Burn Your Fire For no Witness) já trazia uma sonoridade mais complexa, embora ainda muito intimista.

Olsen entrou de cabeça numa vibe mais roqueira em seu terceiro álbum, My Woman, que combina elementos dos primórdios do Rock dos anos 1950 com guitarras sujas ao estilo Indie. A primeira metade do disco é mais pop e acelerada, enquanto na segunda metade predominam músicas mais lentas e longas, com espaço para solos de guitarra e explosões de barulho.

A música de abertura (“Intern”) destoa pelo caráter eletrônico e lento, mas depois se seguem pérolas do pop/rock com destaque para grande hit dessa coleção: “Shut Up Kiss Me”, uma provocante e arrebatadora canção em que atitude e fragilidade se alternam num turbilhão de sentimentos.

“Those Were the Days” é uma belíssima balada jazzística sobre um relacionamento que não parece ser mais o mesmo. A voz de Olsen é de outro mundo, um lamento sussurrado em tom superagudo: “…Se sentindo livre/Querendo ver um ao outro o tempo inteiro/Aqueles eram os dias/Nada a perder e nada pra se achar”.

“Heart Shaped Face” é outra balada que exala dor pra todo lado, e os lamentos contidos da cantora são acompanhados por uma bela linha de baixo e guitarras límpidas e confortantes.

As duas grandes músicas do disco são longas e épicas. “Sister” se desdobra por meio de várias mudanças, começando lenta e gradativamente aumentando o drama e a velocidade. Explode em um solo de guitarra estupendo. Embora muitos falem que o tema da música é o desejo de Olsen de ter uma irmã e a projeção do que fariam juntas, já vi interpretações – das quais particularmente tenho predileção – de que se trata de uma canção sobre a descoberta de uma paixão homossexual. Alguns versos são bem reveladores nesse sentido: “Oh, a verdade que eu pensei ter aprendido/Então finalmente veio à tona/Me virei e estava lá/Todo amor que eu pensei que tinha ido embora.”

Os versos finais também parecem tratar de uma resignação com algo ainda não digerido: “Por toda a minha vida, eu achei que ia mudar”. E eles se repetem inúmeras vezes, enquanto a música cresce em tensão. Toda vez que ouço fico torcendo pra que não acabe nunca, tamanha a sensação de júbilo e libertação.

E ainda temos a outra obra-prima do disco, “Woman”, cheia de paixão e sofrimento, e que reflete a entrega das mulheres aos relacionamentos – geralmente de forma mais intensa que a dos homens – e atinge o ápice numa provocação: “Eu te desafio a entender/O que faz de mim uma mulher”. Começa de forma esparsa e atmosférica, mas, assim como em “Sister”, a tensão cresce e as guitarras aumentam assustadoramente de volume e intensidade ao longo da canção, até o ponto em que tudo se acalma novamente, concluindo num tom mais sereno.

A última música, “Pops”, é tocada somente ao piano de forma propositadamente crua e dissonante. Fecha o disco com chave de ouro e intensa carga emocional.

O impressionante vibrato de Olsen e a capacidade que ela tem de mudar o tom ao longo das músicas fazem com que sua voz esteja sempre como o ponto focal. E ela faz questão de sempre fugir do óbvio, com um estilo arrastado que prolonga as notas e aprofunda as emoções que quer transmitir.

+++ CRÍTICA | Angel Olsen – Whole New Mess

O álbum teve críticas entusiasmadas e boas vendas. No ano seguinte, Olsen lançou Phases, com sobras de estúdio de seus diversos álbuns, e embarcou numa bem-sucedida turnê que a tornou uma estrela do universo alternativo.

O desafio de suceder My Woman com um álbum de inéditas foi encarado em 2019 e ela não decepcionou: All Mirrors é uma impressionante coleção de canções de alta carga dramática e que narram a jornada da cantora do fundo do poço (fruto de uma separação traumática) até a busca por novos horizontes. As guitarras rascantes saem de cena e o cenário é dominado por sintetizadores e batidas eletrônicas, realçando a versatilidade e o espírito artístico aguçado de Olsen.

* Texto publicado anteriormente no livro Rock Feminino.


Capa de My Woman, de Angel Olsen

INFORMAÇÕES:

LANÇAMENTO: 02/09/2016
GRAVADORA: Jagjaguwar
FAIXAS: 10
TEMPO: 47:40 minutos
PRODUTOR: Angel Olsen e Justin Raisen
CURIOSIDADES: O álbum foi estruturado como lados de um disco de vinil, com um lado A mais agitado, e o lado B mais reflexivo | As gravações aconteceram no Vox Studios em Los Angeles | “Intern” foi o primeiro single.
DESTAQUES: “Sister”, “My Woman” e “Heart Shaped Face”


O ÁLBUM ‘MY WOMAN’, DE ANGEL OLSEN


O VIDEOCLIPE DE “SHUT UP KISS ME”:

 

Anteriores Wry reitera momento prolífico com 'Reviver'
Próximo The Flaming Lips lançará álbum de covers com Nell Smith

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE SEU COMENTÁRIO

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *