FIONA APPLE | Fetch The Bolt Cutters



“Em novo álbum, Fiona narra experiências amorosas traumáticas e aflora sua intelectualidade musical”

“Sinto raiva do tempo, mas adoro esse vento que ele insiste em soprar”
(Marcelo Nova, “O galope do Tempo”)

Fiona Apple Mcafee Maggart nasceu em Manhattan no dia 13 de setembro de 1977. Vinda de uma família de artistas, filha da cantora Diane Mcafee e do ator Brandon Maggart, Fiona desde cedo trilhou os caminhos da música. Ainda criança, com seus quatro a cinco anos de idade, já fazia aulas de piano e cantava. A cantora já chegou a relatar que canta desde que se entende por gente. Uma prematura nos caminhos da música.

Com um conjunto de canções melódicas bem trabalhadas e com letras fortes, vocal potente e uma autenticidade em sua música, Fiona criou um estilo único que vem agraciando milhares de fãs e críticos pelo mundo a fora. Seu primeiro álbum Tidal (1996), foi um sucesso de vendas nos EUA, e com apenas 19 anos a cantora, compositora e pianista norte-americana ganhou seu primeiro Grammy.

Fiona Apple chegou para canhonear o ano de 2020 com representatividade, sabedoria, sagacidade e com melodias que remam na contramão de rótulos prontos das canções pop. Composições metafóricas, letras temáticas e psicológicas denunciando o machismo e exaltando o empoderamento feminino.

E é com a força entonada em seus vocais compostos de emoções, sentimentos, fúria e ironismo que somos apresentados ao seu mais novo álbum de estúdio Fetch The Bolt Cutters.

A obra representa muito mais que um rosto bonito por traz de canções pop que assumem sua rebeldia com tamanha magia. A música de Fiona é a personificação da força e resistência feminina. Em um mundo que acelera demais e expõe suas depravações como machismo, assédios sexuais e violência contra mulheres, a artista não se cala. Solta sua voz com crueza, mas sem se perder no escatológico. Em meio a uma atmosfera obscura e eletrizante, revela de forma contundente seu imaginário e traumas do passado.

Fetch the Bolt Cutters é quinto álbum da cantora em sua facultosa discografia. O álbum apresenta treze canções que exploram uma obra sinfônica impiedosa, um retrato sincero do cotidiano e de como a vida nem sempre caminha conforme queremos. Estamos envoltos de um universo de assassinatos, tráficos, sexo, prostituição, política, pandemia e corrupção.

O disco soa vanguardista, emergente com uma ferocidade sem rótulos, direto, meio cru e certeiro em um ponto da alma.

“I Want You Love Me” inicia com uma percussão que logo se perde para dar lugar a um piano melódico. A canção soa como se tivesse saído de um longa-metragem de comedia romântica. Ouvir essa canção é como se ver diluído em uma cena de 500 Dias Com Ela (2009). Uma canção sobre erros e acertos. E como ter maturidade em tempos tão gélidos e áridos. Fiona atinge níveis altíssimos de autoconfiança e entrega uma musicalidade incomparável, algo ainda não visto. Quando sua voz da vida a canção entonando de forma meio falada os versos: “Eu esperei muitos anos, cada impressão que deixei na pista, me levou até aqui”. Você se vê inerte em uma viagem cósmica hipnotizante.

É difícil rotular Fiona Apple com uma outra artista, seu som sempre foi autêntico e único, mas aqui é possível sentir uma certa influência de Joni Mitchell, com canções que geralmente refletem ideias sociais e ambientais, bem como seus sentimentos sobre romance, confusão, desilusão e alegria.

É possível sentir um remoto distanciamento de seus trabalhos anteriores, mas o álbum ainda pode ser reconhecido como algo que só Fiona poderia criar. De forma lírica, ela transborda por seu passado para encarar traumas e enfrentar valentões da escola. “Eu não tinha medo dos valentões, e isso só fazia piorar os valentões”, são os versos da canção “Shameika”, que inicia com pianos embasados em um Jazz frenético para decorrer sobre temas sobre bullying e abusos sexuais. Ela sofreu um estrupo quando tinha apenas doze anos de idade, algo que a marcou profundamente, levando a desenvolver transtornos obsessivos compulsivos e alimentares.  A canção é um regresso ao passado e as feridas da alma.

O disco segue sua narrativa introspectiva, bucólica e um tanto convidativo. Gritos surreais, barulhos estranhos, vozes, tudo emanado em arranjos ásperos que impacta, causa estranheza e aguça a curiosidade pelo desfecho dessa obra poética emergente.

Em meio a todo esse emaranhado tirado da mente de Fiona, encontramos “Fetch the Bolt Cutters”, canção que dá nome ao disco. Aqui a cantora discorre de forma selvagem e viva, olhando para um futuro fictício em busca de um amante imaginário. A canção esconde sinais nas entrelinhas, como se fosse um aviso para mulheres que sofreram e sofrem abusos sexuais: “Pegue os Alicates”. O título passa a ideia de libertação. Algo como: “Saia da prisão a qual você se permitiu viver, seja o que você estiver passando, não se pode viver nesse submundo para sempre”. No final da canção, pode-se ouvir latidos de cachorros, vozes e suspiros. Algo que transporta o cotidiano para o disco.  Sons que ouvimos diariamente em casa ou na rua.

“Under the Table” satiriza o machismo existente nas relações amorosas e violência contra a mulher: “Me chute por debaixo da mesa o quanto quiser, não vou calar a boca, não vou calar a boca”. Fiona usa de metáforas para descrever a violência letal contra as mulheres, a humilhação e espancamento gratuito. Um grito para todas as mulheres sufocadas por relações abusivas.

O disco é definido por percussão e piano. A cantora “sabota” a estrutura tradicional de versos e refrões. Músicas imprevisíveis com certas mudanças de andamento. É veemente, incessável. “Relay” é como se fosse uma encenação de uma peça de teatro notável e sensível, desde sua introdução carregada por linhas nervosas e seu final perturbador e revolucionário.

A criatividade construtiva de Fiona é bela e peculiar. “Rack of His” é enternecedora e ao mesmo tempo cômica, um brinde à solidão, à mágoa e à todas as coisas que não foram ditas antes. O clima nebuloso de confinamento ganha vida na narrativa pessoal do texto e música que Fiona, de forma despretensiosa e de dentro da sua casa, na companhia de seus cachorros dá um chute no estomago da alma onde mora o desassossego. É preciso estar ativo para preencher as lacunas impostas pelas canções de Fetch the Bolt Cutters.

Sua versatilidade expressiva ganha notoriedade já logo de cara pela icônica capa do disco. Com uma foto egocêntrica, com foco em seu olho esquerdo e um sorriso insano inspirado no filme Hereditário (2018).

Fiona não julga ninguém, apenas narra suas experiências amorosas traumáticas e aflora sua intelectualidade musical. Fetch the Bolt Cutters é um disco sagaz, impactante, único e maravilhoso que tem muito a dizer sobre esses tempos de pandemia. Pode ser considerado a obra-prima da artista e um dos melhores discos do ano sem sombra de dúvidas. E, pensando bem, Fiona é todos nós de alma e coração.

NOTA: 9.0

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NOTA DOS REDATORES:

Eduardo Salvalaio:
Eduardo Juliano:
Isaac Lima:
Luciano Ferreira:

MÉDIA: 9.0


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Foto do Álbum Fetch the Bolt Cutters, de Fiona Apple:: FAIXAS:

01. I Want You To Love Me
02. Shameika
03. Fetch The Bolt Cutters
04. Under The Table / 05. Relay
06. Rack Of His
07. Newspaper
08. Ladies
09. Heavy Balloon
10. Cosmonauts
11. For Her / 12. Drumset
13. On I Go


:: Ouça o álbum pelo Spotify:


:: Ouça o álbum pelo Youtube:

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