A imagem como extensão do som, Storm Thorgerson e a capa de ‘Chrome’, do Catherine Wheel


Responsável por capas icônicas, em 1993 Thorgerson iniciou uma parceira com a Catherine Wheel, no álbum Chrome

Storm Thorgerson (1944/2013). Pronuncie esse nome para um fã de carteirinha do Pink Floyd e provavelmente uma série de imagens surreais , enigmáticas, icônicas rodopiarão na mente: um prisma, uma vaca no pasto, um porco sobrevoando uma fábrica, um aperto de mão com um dos homens em chamas, uma “multidão” de camas numa praia, duas esculturas em forma de rostos.

Thorgerson e seu estúdio Hipgnosis não criou apenas a arte da capa de vários álbuns do Pink Floyd, claro, mas graças à parceria com o grupo inglês de Rock Progressivo o trabalho do designer gráfico se popularizou mundialmente.

A icônica capa de Dark Side of the Moon (1973), uma de suas criações mais conhecidas, se tornou um símbolo de Cultura Pop e Rock, amplamente encontrada e instantaneamente reconhecível em camisas, posters, quadros.

Curioso então Thorgerson tenha escolhido a foto usada na capa do álbum Chrome (1993), da banda inglesa de Shoegaze Catherine Wheel para ilustrar a capa do seu livro “Eye of the Storm: The Album Graphics of Storm Thorgerson”. “Chrome é, sem dúvida, uma das nossas favoritas, uma ideia boa e apropriada que se concretizou através de esforço determinado, trabalho de equipe cooperativo e uma boa dose de sorte”, escreveu ao se referir a capa e, ao mesmo tempo, explicando o motivo da escolha.

Em 1993, Thorgerson já era um designer respeitado e de renome. O Pink Floyd era a banda que mais o havia requisitado, mas não só. Nomes como Peter Gabriel, Led Zeppelin, Scorpions, Alan Parsons, Helloween, David Gilmour estão entre os que tiveram seus álbuns ilustrados pelo estilo marcante de Thorgerson até ali. Outros tantos se seguiriam posteriormente: Mars Volta, Muse, Cranberries, Audioslave, RHCP, e mais.

Os caminhos de Thorgerson e do Catherine Wheel se cruzaram quando, de acordo com o designer, Merck Mercuriadis, o empresário do Catherine Wheel e um “fã ardoroso” do Pink Floyd, entrou em contato por telefone e perguntou se ele gostaria de produzir a capa segundo álbum da banda. Mercuriadis comparou a importância da banda do vocalista Rob Dickinson ao Pink Floyd, afirmando que embora fizessem uma música muito diferente do Pink Floyd, sentia que eles tinham potencial para se tornarem tão importantes nos anos 90 quanto o Pink Floyd foi nos anos 60.

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De forma bastante genérica, banda e empresário tinham em mente o uso da “ponta de um iceberg”. A imagem sugeriria que há muito mais na música do grupo do que se possa inicialmente imaginar. Que é preciso um olhar mais profundo, saindo da superficialidade, para encontrar a beleza da música do grupo.

A ideia da ponta do iceberg faz todo sentido. Como todas as bandas que receberam a denominação de Shoegaze, a música do Catherine Wheel induz a um mergulho em ondas de guitarras em camadas volumosas, arrastando por um turbilhão de riffs distorcidos e vocais soterrados. Por baixo de uma sonoridade densa, um rio de melodias correndo num nível mais profundo.

Chrome foi gravado no Britannia Row Studios, o mesmo onde o Joy Division gravou Closer (1980), e produzido por Gil Norton – que trabalhou com bandas como Echo and the Bunnymen, Pixies e Pale Saints, para citar algumas.

Voltando a criação da capa de Chrome, foram feitos dois esboços pelo StormStudios (o Hipgnosis havia sido dissolvido) para que a banda escolhesse o que mais lhe agradava. Em um, um rosto emergia de uma espécie de cama de cromo líquido; no outro (o escolhido pela banda), um iceberg humano formado por três pessoas submersas, com parte do corpo fora da água sendo a “ponta do iceberg”. Todo o processo de criação da capa é contado no livro de Thorgerson.

Storm também comentou sobre os dilemas enfrentados na criação da imagem em uma piscina, com os bailarinos do London Contemporary Dance Theater ( recrutados por Chloe Mason, filha do baterista do Pink Floyd, Nick Mason) submersos:

“Como mostrar a pequena ponta de algo muito maior que não se pode ver? Eis o dilema. Na verdade, a expressão “a ponta do iceberg” é inerentemente aquilo que não se vê, e qual o sentido de colocar algo invisível na capa? Assim, o meio em que o iceberg existe precisa ser transparente e, portanto, a água, apropriadamente. Nosso iceberg tem formato triangular e é composto por bailarinas suspensas na água, com uma pequena parte visível acima da superfície — uma mão —, mas a maior parte, ou seja, seus corpos, submersa”.

Há poucas declarações da banda a respeito da capa de Chrome. O único relato é do baixista Dave Hawes, que em uma entrevista de 2018, comentou sobre a parceria com Thorgerson:

“Começamos a trabalhar com o Storm a partir do Chrome . De novo, não sei bem como começamos a trabalhar com ele. Eu era só o baixista! Mas era óbvio que ele era um gênio e eu adorei trabalhar com ele. Para a capa do Chrome , ele pediu para nós quatro criarmos nossas próprias ideias de como queríamos que nossas fotos fossem incluídas na arte. Nenhum de nós sabia o que ele tinha em mente, mas no dia da minha sessão de fotos eu disse a ele que não queria minha foto incluída, mas sim um reflexo. Foi então que ele me contou sobre a capa da piscina e ficou extasiado com a minha escolha”.

+++ Na Coluna Discos & Capas, leia sobre a capa de ‘Green Mind’, do Dinosaur Jr.

A parceria entre Thorgerson e o Catherine Wheel em Chrome foi tão satisfatória que o designer e seu estúdio seriam responsáveis pelas capas de outros quatro álbuns do grupo.

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