The Twilight Sad lança ‘It’s the Long Goodbye’, com participação de Robert Smith, após período de luto e doença

FICHA TÉCNICA E MAIS INFORMAÇÕES:
ANO: 2026
GRAVADORA: Rock Action
FAIXAS: 10
DURAÇÃO: 48:53 min
PRODUTOR: Andy MacFarlane
DESTAQUES: “Get It Away From All”, “Waiting for the Telephone Call”, “The Ceiling Underground”, “TV People Still Trowing TVS at People”
O mundo não é justo! O mundo da música muito menos. Se fosse, os escoceses do The Twilight Sad – já de algum tempo reduzidos ao vocalista James Graham e o guitarrista Andy MacFarlane – seriam maiores do que são. As qualidades de sua música estão expostas ao longo de seus consistentes seis álbuns, e são reafirmadas em It’s the Long Goodbye, seu mais recente trabalho após um hiato de sete anos desde ‘It Won/t Be Like This All the Time’ (2019).
Para falarmos de It’s the Long Goodbye é necessário retornar ao álbum de 2019.
Quando comentamos sobre ‘It Won/t Be Like This All the Time’ falamos de quanto a influência “externa” influenciou no resultado final da obra. Aqui não é diferente. Os acontecimentos externos à banda ganham uma proporção maior e mais dolorosa, refletindo de forma mais dura ao longo das canções. Graham abandona as metáforas nas letras e escreve versos totalmente pessoais, seja na sua perspectiva ou na de uma terceira pessoa. O álbum transborda a dor da perda.
It’s the Long Goodbye não é apenas um novo álbum do The Twilight Sad, pode ser tomado como a forma que o vocalista encontrou de atravessar o processo desencadeado após a descoberta da doença de sua mãe, posteriormente o luto e, na sequência, com o próprio adoecimento mental. Ao invés de romantismo, nos deparamos com sentimentos vertidos em letras, interpretadas, como de costume, de forma visceral. É a exposição da dor. É a lembrança da impermanência. O memento mori cantado pelo Depeche Mode e pelo The Cure em seus trabalhos mais recentes.
Curioso que ao falar do The Twilight Sad o nome do The Cure surja, não apenas pela influência musical, mas pela importância de Robert Smith na trajetória da banda. Mais do que um fã confesso, apoiador e amigo pessoal da dupla, em It’s the Long Goodbye, Smith foi uma espécie de “produtor invisível”, que ajudou a banda no processo de criação do álbum, e participa em três canções.
Apesar da temática sombria nas letras, encontrada já na abertura com “Get It Away From All”: “E lentamente observamos você ir, voltei para casa / Não te deixei sozinha, e voltei para casa / Eu não te deixei sozinha, Eu não te deixaria sozinha / Voltei para casa… Você é a minha mãe”, a música composta por MacFarlane é contrastante; transborda brilho, vigor e…vida. As guitarras estão de volta ao centro, como na citada abertura. Elas rasgam a estrutura dos arranjos com riffs retorcidos que parecem agonizar, expurgam uma dor que precisa ser liberada e libertada. E mesmo com o impulsionamento das guitarras, o grupo alterna dentro das próprias canções com momentos mais calmos, permitindo que baixo e teclados deem profundidade e o senso melódico necessário ao arranjo.
A vigorosa “Waiting for the Telephone Call”, um dos singles do álbum, direciona a música do grupo para as pistas de dança e dá espaço para inserção de teclados dramáticos. Sua batida é um convite para a dança, uma dança melancólica, já que a letra, cantada em terceira pessoa, traz alguns dos versos mais funestas do disco em um dos refrãos: “Me veja morrer / Ninguém pode te machucar agora / Não, ninguém pode te machucar agora / Há uma dor em mim que ninguém pode ver / Reúna-se e venha morrer comigo / Me veja morrer / Sozinha no escuro / Não é fácil”.
Em “The Ceiling Underground”, composta por acordes menores, Graham canta sobre a sua doença, apostando na repetição como forma de expor sua agonia diante de uma sensação de afogamento psicológico: “Minha cabeça está cheia de mais coisas para sentir falta / Por que se sente assim? / Por que parece que nada é real? / Por que se sente assim?”.
Diante da inevitabilidade, deveríamos estar preparados para nos despedir daqueles que amamos, mas a verdade é que a sensação é de que o tempo que tivemos não foi o bastante. O luto é algo muito pessoal, mas as suas fases, segundo a Psiquiatria, são universais: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. James Graham reflete sobre todas essas fases em It’s the Long Goodbye, acompanhá-lo ao longo das dez faixas que compõem o álbum é uma jornada sufocante através de, inclusive, tempestades de barulho, como em “Dead Flowers”, definida como “um grande épico barulhento sobre a morte”.
Se aproximando do fim, a quase acústica e quase tranquila “Back to Fourteen” adentra a fase final, trazendo versos que alternam entre o retorno a uma outra época, um momento marcante e feliz a ser guardado como recordação e a súplica: “De volta aos quatorze novamente, estou de volta aos quatorze…/ Não a leve embora, não a leve embora / Não a tire de mim”.
+++ Leia tudo já publicado no Urge! relacionado ao The Twilight Sad
Paradoxalmente, das primeiras composições do álbum, a climática “TV People Still Trowing TVS at People” encerra It’s the Long Goodbye com uma mensagem de “otimismo” (?). Muito mais um desejo de “libertação” cantado como um grito de desespero através dos versos que se repetem efusivamente até o final: “Tudo bem você se sentir assim? / Não, eu não quero me sentir assim”.
O The Twilight Sad pouco se importa se o mundo é um lugar justo. Pouco se importam se não são maiores do que deveriam ser. Eles se importam em seguir adiante com sua música, mesmo com todas as adversidades, mesmo com toda a dor ao redor. Eles entendem que música é conexão, conexão com nossos sentimentos, sejam ele de qual espectro que for. Incluindo os sentimentos quando somos obrigados a dar o “longo adeus”. Não é sobre esquecimento, é sobre lembranças, por mais dolorosas que sejam.
No Comment