Em ‘Hey What’, mestres do Slowcore acertam de novo e aprofundam sua revolução sônica


Low Band 2021, por Nathan Keay
Foto | Nathan Keay

O novo disco do Low, Hey What, é uma desconstrução do Rock que pode ser equiparada com a de grandes arquitetos sônicos que revolucionaram o gênero, como My Bloody Valentine e Cocteau Twins. Não existe nada parecido com o intenso uso de efeitos que perturbam o ouvinte quase no limite da tolerância, distorcendo os sons ao ponto de que fica impossível descobrir qual instrumento está gerando aquilo. Hey What é um aprofundamento da revolução estética adotada em Double Negative (2018), álbum anterior do grupo e segundo feito em parceria com o produtor BJ Burton (o mesmo de Hey What e de 22, A Million, de Bon Iver), e um dos pontos altos de uma carreira impecável construída no underground e com treze discos lançados em quase trinta anos.

Pensando bem, se remetermos ao histórico do grupo, dá pra afirmar que eles sempre soaram como aliens no universo do rock. Centrada no casal Mimi Parker (vocais e bateria) e Alan Sparhawk (vocais e guitarra), a banda se tornou um símbolo do gênero Slowcore, um Rock melancólico, minimalista e silencioso, tocado usualmente em ritmo bem lento e letárgico. O grupo foi formado em 1993 em Duluth, norte dos EUA (fronteira com o Canadá), e de forma provocativa optou por uma sonoridade oposta ao estilo Grunge (alto e barulhento) que dominava o cenário naquela época.

O primeiro disco, We Could Live in Hope (1994), teve boa repercussão no cenário alternativo. As harmonias vocais de Parker (dona de uma belíssima e poderosa voz) e Sparhawk e a percussão esparsa de Parker – que usa um kit de bateria simples com três peças, sem uso dos pés e com clara inspiração na baterista Moe Tucker, do legendário Velvet Underground – se tornaram uma marca distintiva. As letras oblíquas e de temática reflexiva carregavam uma melancolia profunda e não deixavam transparecer o alto engajamento dos dois na religião mórmon.

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Prolíficos, lançaram mais três discos até o final da década de 1990 com pequena evolução na sonoridade, e se tornaram referência de uma musicalidade crua, atmosférica e pungente. Em 2001, lançaram Things We Lost in The Fire, produzido pelo mago da cena alternativa Steve Albini, com quem compartilhavam a filosofia de gravações espontâneas e pouca manipulação em estúdio. O resultado foi brilhante, uma coleção de canções alinhadas com a trajetória do grupo, mas que conseguiam expandir os horizontes por meio de melodias mais palatáveis e uso de alguns outros instrumentos.

O padrão de qualidade se manteve nos anos seguintes, em que o trio explorou novos caminhos com incorporação de eletrônica (Drums and Guns, 2007), uma guinada leve para a música country (The Invisible Way, 2013), e outras mudanças sutis que serviram para reforçar a sonoridade típica do grupo e atestar seu espírito inconformista e a consistência de sua carreira. Mas foi mesmo com Double Negative (2018) é que Sparhawk e Parker provaram que poderiam surpreender, ao conceber um universo sonoro próprio em que a aridez de sons opressores se mescla com as harmonias vocais e ainda abre espaço para passagens de música ambiente, orquestrando uma viagem sonora imprevisível, desafiadora e impactante.

Em Hey What, a fórmula se repete, só que dessa vez as vozes do casal são poupadas da manipulação, o que, de certa forma, torna o disco um pouco mais acessível (pelo menos para quem já tinha ouvido Double Negative). Só que não se perde nada do impacto, em grande parte pela capacidade ímpar que o duo tem de mesclar canções simples e assobiáveis com uma atmosfera peculiar e opressora. O produtor Burton é um mestre em utilizar a tecnologia – tanto de ponta quanto vintage – para comprimir e destrinchar sons ao ponto de se tornarem irreconhecíveis, e, por vezes, se fundirem num pulsar monolítico assombroso.

“White Horses” abre os trabalhos com sons dissonantes, até que as harmonias vocais características surgem para acrescentar humanidade ao cenário inóspito. Mas não por muito tempo. O trecho final é impregnado por um barulho maquinal repetitivo que se estende para a próxima canção, “I Can Wait”, uma ode à longevidade do amor encapsulada numa atmosfera que equilibra tensão e beleza de forma alquímica e termina em modo calmo e viajante, fundindo-se com “All Night”, uma peça que ensaia um Dream-Pop à la Beach House e engata um “La, La, La” insistente e deslumbrante, o que reforça mais uma vez o talento do duo em criar melodias simples e memoráveis. A esquisitice aumenta no final, e se você arriscou chamar seu avô para apreciar, talvez seja hora de tirá-lo da sala.

“Days Like These”, o primeiro single, é a peça central do álbum, e, arrisco dizer, uma das grandes músicas da carreira do Low. Principia com vocais inebriantes a capella, entregando uma letra carregada de desesperança (“Oh, you wanted so desperately/ No, you´re never gonna be released”); com pouco mais de um minuto, três acordes de guitarra (isso mesmo, guitarras simples e reconhecíveis) dominam o cenário de forma mágica. A canção se desdobra numa parte final belíssima em que a palavra “Again” é repetida e acompanhada por uma série de efeitos que me lembraram a teia sonora criada pelo Talk Talk em Spirit of Eden. Aliás, o Low é um dos grandes adeptos do princípio “cada nota importa” defendido ardentemente por Mark Hollis e seus comparsas.

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O grande destaque da parte final do registro é “More”: rápida, intensa e alicerçada num riff perturbador. De guitarra? Não tenho ideia, e espero ter a oportunidade de assistir a banda ao vivo na próxima turnê para descobrir. O que me dá esperança é o fato de que, nos shows que se seguiram a Double Negative, eles não se preocuparam em reproduzir fielmente o som de estúdio, o que torna muito interessante ouvir as músicas em suas versões “originais” e esqueléticas, lembrando que por trás da cacofonia podem estar guitarra, baixo e bateria. Aliás, uma das sensações mais estranhas do disco é propiciada por uma percussão “normal” que aparece do meio pro fim da última faixa e parece totalmente deslocada do universo artificial com o qual o ouvinte aprendeu a conviver pelos quarenta minutos anteriores. Vale mencionar também “Don’t Walk Away”, uma balada sobre um relacionamento que “parece durar por cem anos”. Sussurros ao fundo criam uma atmosfera intimista e pungente, fazendo jus aos versos entoados pelo casal: “A shadow in your night/A whisper in your ears”.

Hey What não é um disco para todos os paladares, e pede tempo para ser devidamente apreciado. A liberdade criativa e a ousadia por parte de quem já tem tanto tempo de ofício merecem toda a aclamação. E o tempo dirá se a abordagem inovadora de Parker, Sparhawk e Burton vai ser influente como a do My Bloody Valentine e a do Cocteau Twins ou se eles vão continuar (com orgulho) sendo um ponto fora da curva do Rock Alternativo. A conferir.


Low, Hey What cover

INFORMAÇÕES:

LANÇAMENTO: 10/09/2021
GRAVADORA: Sub Pop Records
FAIXAS: 10
TEMPO: 46:12 minutos
PRODUTOR: BJ Burton
CURIOSIDADES: Mimi e Alan são mórmons e casados | Alan toca numa banda cover de Neil Young
DESTAQUES: “White Horses”, “Disappearing” e “Days Like These”
PARA FÃS DE: Experimentalismos, Slowcore, Drone Music

 


O ÁLBUM


O VIDEOCLIPE DE “DAYS LIKE THESE”:

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