O Ápice (Vzyadoq Moe, 1988)


“Incompreendido por estar muito à frente de seu tempo, O Ápice permanece um dos grandes discos do rock BR80”

Em uma de minhas idas ao saudoso e já comentado Cabaret Voltaire, loja de discos e ponto de encontro de jovens em busca de algo mais além do que tocava nas rádios FM’s, vislumbrei na parede, como era comum, esse disco do Vzyadoq Moe, do selo independente Wop Bop. Já o conhecia há algum tempo e o efeito de sua audição havia sido catártico: com uma simplicidade incrível que fazia par com uma criatividade de mesmo tamanho, aquele jovens de Sorocaba (todos com menos de vinte anos) haviam capturado uma porção de meus sentimentos e transformado em música: letras de cunho poético e músicas de base repetitiva e simples.

Dentro desse universo de guitarras sujas e batidas secas, um clássico instantâneo que em parte destoava do restante do disco pela sua proposta um tanto melódica, minha canção de cabeceira na época: “O Ápice”, cujo refrão eram versos que remetiam tanto ao lirismo sombrio de Augusto dos Anjos quanto ao pessimismo de Schopenhaur: “A peste escala nosso leito”.

“Dupla dimensão deleite e dor dose dolorida e débil de defesa”.

Assim começava Fausto Marthe a letra de “Redenção”, outra das minhas canções favoritas do álbum. Com o recurso da aliteração, figura de linguagem sonora, Marthe tentava sair do lugar comum, buscando seu lugar ao sol entre os grandes poetas/letristas do rock nacional, ao explorar numa letra recursos não usuais da língua pátria.

As letras de Marthe – que alguém inventou de chamar de anti-letras e até hoje muitos repetem ao resenharem o álbum – eram na verdade poesias repletas de simbolismos a serem declamadas com dramaticidade teatral sobre as bases criadas pelo grupo.

O ápice dessa combinação é atingido na derradeira faixa do álbum “A Expansão”, que tem uma das frases emblemáticas do disco e reflete o desejo de grandeza: “Estou tão grande agora que não mais me enxergo”. Desejo esse também expresso nas faixas ‘O Incerto’: “Quero ser Deus. – Quer é ser tudo, necro e sórdido palhaço!”; e ‘Redenção’: “Jovem demais. Audaz? Senil.”

“O Ápice”, ou a própria existência da banda, trazia implícito um conceito que começava com o nome da banda (um ajuntamento de letras, utilizando ideias dadaístas, que resultou em Vzyadoq Moe), a capa do disco que remete ao cubismo, as letras recheadas de referências literárias, e até mesmo a divisão do disco em dois atos: “Da Finitude Carnal” (Lado A) e “Da Ressureição” (Lado B).

Por utilizarem um kit de bateria que continha peças metálicas diversas, muitos rotularam a banda de industrial, mas pra mim sua música está a par mesmo é com as bandas pós-punk inglesas: Joy Division e Bauhaus mais notadamente. Bandas cujos discos também rolavam muito no meu toca discos nesse período, seja através de vinis ou das salva-vidas fitas cassete, que me deram muitas alegrias e raivas, quem já teve sabe do que estou falando.

O Vzyadoq causava desconcerto (e buscava sua originalidade) ao misturar o lado pós-punk com batidas de samba, e jogar nesse meio uma letra cheia de desespero com um refrão assim: “Não há morte que sane nosso males”, na faixa “Não Há Morte”. E a morte é um tema recorrente ao longo do disco, morte e ressurreição: “Caminhe para cá, não tenha medo, é apenas a expansão”.

Não era, e continua não sendo, uma música fácil, pelo contrário, e talvez esse seja um dos motivos que soe atraente para muito poucos, eu incluído.

Pra mim o Vzyadoq Moe (e por extensão seu primeiro álbum) foi uma das bandas mais criativas surgidas no rock nacional na década de 80. Por estarem muito à frente de seu tempo não foram compreendidos, e passados quase trinta anos desde o lançamento de seu álbum, sua situação não mudou. Sinto-me afortunado por ter conhecido a banda e por suas músicas fazerem parte da minha história.

FAIXAS:
1. Junto Ao Céu
2. O Último Designo
3. O Incerto
4. Desejo Em Chamas
5. Redenção
6. Não Há Morte
7. A Monomania
8. O Ápice
9. Guerra Das Sombras
10. Expansão

:: Ouça o álbum na íntegra:

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