Precisamos falar sobre ‘Whirlpool’, do Chapterhouse


Foto Chapterhouse, especial Whirlpool

Riffs de guitarra melodiosos em primeiro plano, bateria acelerada, vocais indolentes soterrados, estamos diante da empolgante “Breather”, uma cruza entre a urgência do My Bloody Valentine de “Isn’t Anything”, representada pelas batidas e viradas aceleradas da bateria, e os timbres característicos do Ride, construídos a partir da sonoridade melodiosa das Rickenbakers, com a combinação de processadores de efeitos para criar texturas envolventes ou camadas de noise. Características que se tornariam espécie de paradigma para futuras gerações de bandas Shoegaze. É assim que o quinteto inglês Chapterhouse abre Whirlpool, seu incrivelmente subestimado álbum de estreia.

Capa de Whirlpool, do Chapterhouse

Paradigma? Chapterhouse nunca se manteve preso a ele. De todas as bandas categorizadas na “primeira prateleira Shoegaze”, foi a que abarcou em suas músicas uma maior diversidade de influências, que incluíam os anos 60, através do lado mais experimental dos Beatles e do vanguardismo do Velvet Underground, mais as harmonias vocais e as guitarras melodiosas dos The Byrds; passando pela releitura do noise promovida pelo Sonic Youth, as distorções e feedbacks do The Jesus and Mary Chain e as ambiências oníricas do Cocteau Twins; e ainda um pendor para o lado dançante, antenando-se com a contemporânea cena Indie-Dance e das raves.

Justamente por não se encaixar perfeitamente num rótulo, mas transitar em gêneros diversos, a banda é muitas vezes esquecida ou relegada a patamares inferiores em listas de álbuns Shoegaze. Parte desse lado multifacetado pode ser explicado pela divisão das composições entre os três compositores e guitarristas: Stephen Patman, Andrew Sherriff e Simon Rowe, e dois vocalistas (os dois primeiros citados). “Blood Music”, o segundo álbum, foi marcado pela forte interferência e pressão da gravadora para que o grupo enveredasse por um lado mais dançante e acessível e criassem urgentemente um hit.

Deixando as pressões e listas de lado, Whirlpool é um álbum quintessencial no Shoegaze, diversificado sem perder coesão, com uma envolvente atmosfera que recobre todas as faixas.

Resultado de quatro anos de aperfeiçoamento musical (ouvir os primeiros singles do grupo permite perceber isso), o álbum é um caldeirão fervente que transborda canções borbulhantes, com momentos que induzem ao transe completo como em “Pearl”, que conta com os vocais de Rachel Goswell (Slowdive), atestado da capacidade do grupo em produzir um hit hipnótico, dançante e ao mesmo tempo repleto de climas etéreos, entrecortado por riffs rasgantes de guitarra, antecipando algo que seria a tônica em Loveless (1991), do My Bloody Valentine, lançado alguns meses depois.

A sufocantemente bela e semi-acústica “Something More”, outro dos momentos memoráveis do álbum, em sua versão mais noise traz a participação de Robin Guthrie (Cocteau Twins) na produção. Na versão do álbum se torna um Dream-Pop de primeira grandeza com riffs dilacerantes e vocais pálidos, quase fantasmagóricos, que imploram por algo mais (Give me something more), sufocado por várias camadas de barulho. Essa ambivalência entre os climas plácidos e sonhadores que de súbito é esfacelada por um turbilhão noise é recorrente ao longo do disco, em “Autosleeper” o cadenciamento mais imersivo é brutalmente desconstruído com um rolo compressor de barulho e caos, influência direta do Sonic Youth.

“Whirlpool” em seu formato originalmente lançado tem apenas nove canções e um microcosmo que abarca as diversas facetas de um gênero que não deveria, mas em muitos momentos se tornou engessado. Ouvir a estreia do grupo permite um olhar para fora do círculo, onde os timbres de guitarras podem ser barulhentos e caóticos, melódico, drone, ou etéreos, convivendo com ambientações oníricas, atmosferas hipnóticas e vocais indolentes soterrados, e até um lado dançante. É isso o que o torna um álbum singular na lista dos essenciais para entender o Shoegaze noventista. E sua capa, em pé de igualdade com a do Teenage Fanclub (Bandwagonesque) ou Primal Scream (Screamadelica), entra no rol da icônicas daquele ano que se foi já há três longas décadas.


CHAPTERHOUSE – Whirlpool (Expanded Edition):


VIDEOCLIPE DE “PEARL”:

VIDEOCLIPE DE “SOMETHING MORE”

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