ATLANTIQUE (ATLANTICS, 2019)


Mame Bineta Sane em cena do filme Atlantique

“Atlantique trabalha com muitos enfoques e ideias dentro de um universo que funde o real e o fantástico.”

Mati Diop foi a primeira diretora negra a competir pela Palma de Ouro do Festival de Cannes. A cineasta franco-senegalesa também era atriz e participou de filmes como 35 Doses de Rum (2018), da francesa Claire Denis. Ao lado da carreira de atriz, realizava alguns curtas-metragens. Diop já havia feito um documentário onde apresentava algumas ideias que posteriormente ficariam evidentes em Atlantique. Foi então que, a partir daí, a vontade de fazer o filme nasceu.

Atlantique é um filme que trabalha de várias formas. E a primeira delas é representar um manifesto de crítica social e política, apesar de não tão transparente assim. Precisa ser absorvido pelo espectador.

Logo nos primeiros minutos, vemos operários trabalhando num imponente e luxuoso prédio em Dacar. Depois de dez minutos, o cenário é trocado pelas ruas insalubres e pobres das favelas da capital. A construção urbana opulenta, edificada por pobres trabalhadores que não recebem o salário há quatro meses, é o contrapeso necessário, embora amargo, para iniciar a trama.

Adiante, o espectador conhece a personagem Ada (numa atuação convincente de Mame Bineta Sane) que se vê obrigada a casar com um homem rico (Omar) por questão de tradição e religião locais. Mas a moça se apaixona por Souleiman, um rapaz que fazia parte do grupo de operários do imponente prédio e com salário atrasado. Dessa forma, a diretora questiona sobre as formas de opressão que ainda sufocam as mulheres, a propósito do machismo e patriarcalismo.

Ada é a reação contra esse sufocamento e prefere a recusa ao casamento, ao contrário da pressão dos pais e das amigas (“muitas queriam estar no seu lugar, Ada”). Chega a ser questionada a respeito de sua virgindade pela família de Omar sendo forçada, de forma constrangedora, a fazer um exame no hospital da cidade. Os conservadores e repreensivos controles contra a mulher na sociedade, existentes e utilizados até hoje, são postos em xeque no filme.

Da mesma forma, a questão do “ter riqueza mesmo que eu não sinta afeto nenhum pela pessoa” criada em tempos de capitalismo excessivo não fica de fora e constantemente traz reflexos no espectador, do início até o fim do filme (onde temos o empresário egoísta que, digamos, recebe sua lição de moral de uma forma diferente).

Com um misto de romance, cinema fantástico e drama, o filme também conta com elementos de sobrenaturalidade e espiritismo, tudo focado não para dar nuances de um filme de terror, e sim, para servir como uma metáfora apropriada que corrige os erros nocivos cujo capitalismo desenfreado comete e todos os dissabores da injustiça social/trabalhista. No filme de Diop, o espectador estará diante de antagonismos que o fazem pensar como: real e fantástico, moderno e tradicional, humildade e usura.

Outro elemento muito bem trabalhado na película é o mar. Constantemente aparecendo entre as cenas, aqui ele representa uma ideia de isolamento, perda e distância.

Para Souleiman e seus amigos operários, o mar tornou-se a barreira para encontrar outro país e dessa forma conseguir um emprego melhor. Como diz um dos personagens em determinado momento: “pensávamos que se tratasse de um monte distante, porém era uma onda gigantesca que vinha contra nosso barco”. A imensidão do mar em Atlantique também passa a tristeza e o vazio que Ada sente ao saber do possível destino de Souleiman, com destaque para uma sonoplastia que preza pelo barulho alto das ondas em diversas cenas do filme em que a protagonista sente-se desolada.

Os close-ups de Ada e Souleiman, a bonita cena em que ambos se veem pela primeira vez e a melancolia verdadeira da personagem em contraste com a alegria hipócrita dos convidados na cerimônia de um casamento forjado são momentos que estarão retidos na mente do espectador por mais que ele não admire o filme como um todo. Também são indicativos de uma diretora com ideias na cabeça, força para seguir com seu talento e de causar surpresas no futuro.

NOTA: 7,0


:: NOTA DOS REDATORES:
Eduardo Juliano:
Isaac Lima:
Luciano Ferreira:

MÉDIA: 7,0


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:: FICHA TÉCNICA:
Gênero: Drama
Duração: 1h 44 min
Direção: Mati Diop
Escrito por: Mati Diop, Olivier Demangel
Elenco: Mame Bineta Sane, Ibrahima Traoré, Amadou Mbow, Ibrahima Mbaye Sope, Babacar Sylla, outros
Data de lançamento: 15 de novembro de 2019 (Cinemas), 29 de novembro de 2019 (Netflix)
Censura: 12 anos
IMDB: Atlantique
ROTTEN TOMATOES: Atlantique

 


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