ENTREVISTA COM CÉUS DE ABRIL


Céus de Abril é uma banda de Parauapebas, Pará. Capitaneada pelo vocalista/guitarrista Wilson Alencar, a banda vem há alguns anos labutando no universo musical independente num terreno musical alicerçado por guitarras que se embrenham em efeitos de reverb e distorção para produzir uma massa sonora densa e barulhenta, mas que ganha tons poéticos nas letras. Sua música conduz aos anos 90, mas também aponta para novas direções ao trazer uma abordagem atual para a fórmula e com letras em português.

Atualmente a banda tem em sua formação Wilson Alencar (guitarra e voz), Homer Serejo (synth e voz), Renato Araújo (baixo) e Netto Battera (bateria). No currículo o EP “Último Adeus” (2015) e “Hidden Tracks” (2017), e participação em várias coletâneas de covers lançadas pelo selo/site The Blog That Celebrates Itself, responsável pela divulgação do grupo. Por e-mail, enviamos algumas perguntas para a banda que gentilmente nos respondeu.

Voltando um pouco no tempo, poderiam nos contar como surgiu a Céus de Abril e quais as pretensões ao montar a banda?
R: A Céus de Abril surgiu em meados de 2009/2010, quando a minha vontade de tocar guitarra aflorou. Eu já era bem apaixonado por alguns discos como o “Loveless”, do My Bloody Valentine e “In the Presence of Nothing”, do Lilys. Mas foi quando eu ouvi bandas como Fleeting Joys, APZOO e Ringo Deathstarr que a coisa ficou séria, pois daí em diante eu passei a acreditar que também poderia fazer aquele som.
A minha pretensão sempre foi tentar traduzir o som dessas bandas que eu tanto amo para o universo brasileiro da música independente.

Corrija-nos se estivermos errados, mas Parauapebas é uma cidade que se parece com Feira de Santana em alguns aspectos: uma cidade relativamente grande,comércio forte, altos índices de violência, mas em termos musicais com uma defasagem enorme. Aqui as coisas tem mostrado indícios de melhoras, com shows acontecendo e até festival, e aí em Parauapebas, qual o cenário?
R: Sim, Parauapebas é um tanto caótica, sim. Porém, o lance aqui é a mineração, uma área totalmente industrial, onde as pessoas trabalham dia e noite sem parar (literalmente).
A cena musical é bem pobre, dominada pelo sertanejo, forró entre outras mesmices. Atualmente temos apenas um festival consolidado que acontece anualmente, sendo este o Lab Rock Festival, que foi também palco para a primeira apresentação ao vivo da Céus de Abril.

Considerando o ponto onde a banda está agora, acham que está dentro do planejado ou esperavam estar um pouco além?
R: Estamos satisfeitos com a situação atual da banda em relação a público e retorno da mídia especializada. Claro que gostaríamos de fazer mais shows, mas o Brasil ainda não é um grande consumidor do tipo de música que fazemos, esperamos conseguir subir alguns degraus depois do nosso próximo lançamento.

As letras da banda mais parecem poemas do que letras propriamente ditas, como elas surgem e que papel desempenham dentro do contexto da música, inclusive considerando que os vocais estão soterrados pela massa sonora?
R: Por mais que eu tenha ciência de que poucas pessoas entenderão ou mesmo terão a curiosidade de procurar a letra pela internet, me preocupo tanto com as letras como me preocupo com os timbres de guitarra. Gosto de saber que estou passando alguma mensagem literal dentre as muralhas de guitarras e reverbs, também é uma forma de eu expor minhas influencias da música brasileira dentro da sonoridade que a banda propõe.
Geralmente as letras surgem primeiro dentro do meu processo de composição, e são elas as responsáveis pelo tom/atmosfera que a música toma no final.

Em uma entrevista ao Flogase de 2015 vocês falavam das dificuldades de fazer shows, isso mudou de lá pra cá? Inclusive vocês fizeram show em Manaus no ano passado.
R: Não mudou em nada, continua bem difícil conciliar a rotina de trabalho coma música (que também não deixa de ser um trabalho).
Fazemos pouquíssimos shows, porém quando eles acontecem são em grandes festivais, e isso é muito recompensador e satisfatório.
Em Manaus foi pelo Dia da Música, nos inscrevemos e incrivelmente passamos.

Como surgiu a parceria com o TBTCI e em que moldes ela acontece?
R: Eu acompanho o TBTCI desde os primórdios, e quando resolvi gravar algumas demos mandei para o Renato Malizia, e de cara ele abraçou a ideia, desde então viramos grandes parceiros e amigos.
Hoje o TBTCI Records é o responsável pela distribuição do nosso trabalho, ele desempenha o papel de Selo mesmo. A parte de produção/gravação/shows continua comigo e os outros membros da banda.

Como avaliam o retorno de bandas ícones da sonoridade que vocês tem influência, como MBV, JAMC, Slowdive e Ride? Acham que de alguma forma isso pode ajudar bandas com sonoridade como a da Céus de Abril?
R:Acredito que sim, pois desde que essa turma começou a lançar material novo e a tocar em festivais, me parece que o público jovem vem abrindo os olhos para essa cena. E consequentemente isso acaba abrindo algumas portas pra gente e outras bandas novas do gênero.

Dentro do cenário nacional e do seu estado, quais bandas vocês se sentem próximos e quais recomendariam?
R: No nosso estado nos identificamos mais com algumas bandas mais 90’s, como a Turbo, Aeroplano, The Baudelaires… De outros estados, gostamos muito de bandas como a Loomer, Justine Never Knew The Rules, Lava Divers, Travelling Wave, The Sorry Shop.

Como vocês enxergam a Céus de Abril em três contextos: Pará, Brasil e mundo?
R: Ahhh man… Difícil dizer isso. Apenas fazemos nossa música com muito amor, não sabemos bem o que as pessoas acham ou não da gente. Mas vamos lá, vou tentar responder:
Pará – uma banda que não fala de açaí ou maniçoba.
Brasil – uma banda de shoegaze do Pará (Rsrs…).
Mundo – uma banda que sonha em tocar no Japão.

Em novembro do ano passado aconteceu aí no Pará o Festival Se Rasgum, com a participação de bandas de todo o país, o que faltou para a Céus de Abril participar do Festival, vocês tinham pretensão de participar? E como rolou a participação no show da Loomer?
R: Tocamos na edição de 2016, abrimos o show do Yuck, como não tínhamos muito material lançado em 2017, não tivemos pretensão de tocar.
Sobre a participação no show da Loomer, eu me convidei e os caras amaram a ideia (Rsrs…).

Como avaliam a cena independente nacional atual?
R: Hoje me parece que as coisas acontecem bem mais do que há alguns anos atrás, mas ainda acho que as coisas no Brasil são muito difíceis e burocráticas em relação à cena indie lá fora. Tenho até preguiça de me inscrever em festivais, pois se você não tiver nenhum “peixe” dentro da organização do evento ou algum selo famosinho para intermediar, se torna quase impossível entrar. Geralmente também os caches não cobrem nem as passagens das bandas, mas enfim, depois a gente fala mais sobre esse assunto tomando uma breja (Rsrs…).

Nesse momento, qual o foco da Céus de Abril, vocês pretendem lançar algo em breve? Já pensaram largar os empregos e viver de música?
R: Nesse momento estamos gravando alguns temas para um futuro EP ou mesmo um álbum full, ainda não decidimos o formato. Mas até o final do primeiro semestre a gente lança material novo,e depois do lançamento a ideia é um tour nacional.
Largar os empregos e viver de música é um sonho de muitos, mas no momento isso não nos passa pela cabeça.

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:: Ouça o single “Último Adeus” na íntegra:

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