FAR FROM ALASKA – Unlikely (2017)


“Pesado mas com um maior aceno ao pop e ao eletrônico, mais divertido”

Após um primeiro álbum bem sucedido, a Far From Alaska poderia para seu segundo disco simplesmente manter a pegada e seguir adiante com seu rock de guitarras vigorosas e batidas pesadas. Passaram-se quatro anos desde lá, e ao invés de enveredar por esse caminho mais “confortável”, optaram por diversificar sua música, desfazer aparências, colorir seu som.

As pessoas criam imagens a partir de uma série de referências que lhes damos, embora nem sempre façamos isso de forma consciente ou fazemos com um intuito e obtemos o efeito contrário. No caso da FFA, perceberam que haviam criado uma imagem de roqueiros sisudos, sombrios. Algo que se associou à banda por fatores diversos, que inclui: capa do disco, clips e, até mesmo, maneira de se vestir.

Identificada a criação dessa imagem que não lhes convinha, resolveram buscar desfazê-la e mostrar que suas canções e seus shows podem e devem ser algo divertido. Basta ver como as vocalistas Emmily e Cris interagem e se divertem no palco atualmente. Basta observar todo o conceito artístico que usaram na capa do álbum, os tons utilizados no clip de “Cobra” e as próprias declarações da banda em entrevistas.
Explorando um gênero musical em que a maioria das bandas possuem um vocalista à frente, a FFA já era diferente desde o seu surgimento, com as garotas assumindo o protagonismo nos vocais de forma surpreeendente. Emmily, que antes tocava bateria, foi jogada pra frente do palco e tem se mostrado uma vocalista e frontman em processo crescente de evolução, em alguns momentos de “Unlikely”, principalmente nas faixas “Flamingo” e “Pig” (canção mais leve do disco), sua voz lembra a de Alanis Morissete. Falando nessa canção, ela pode ser tomada como exemplo da mudança pela qual passou a sonoridade do grupo, seu arranjo tem momentos suingados, com baixo bem groove e um grudento “oi oi oi oi”, que a torna divertida e também devidamente arquivada na memória.

A abertura é com “Cobra”, primeiro single do álbum. Uma canção com todas as características apresentadas no álbum anterior: baixo pesado e distorcido, batidas poderosas de bateria, elementos eletrônicos que se aproximam do industrial, mas com o detalhe de trazer um refrão assimilável e ter a duração necessária para ser absorvida e sentir vontade de um repeat.

“Unlikely”, comparado a “ModeHuman” é um álbum mais curto e com canções também mais curtas. Um de seus lados desencanados é o uso de nome de animais em quase todas as faixas, exceto em “Pizza”.

Outra das faixas “diferentes”, com uma batida pra cima e contagiante, quase carnavalesca. É uma faixa curtinha, a menor do álbum e soa como uma espécie de brincadeira. No show é engraçado ver as meninas se divertindo e dançando – é uma espécie de convite à dança às avessa, cheia de quebradas no andamento , a letra é bem clara: “Se você começar a se sentir pra baixo, balance as cadeiras, sinta o groove”.

Para quem gostou do álbum anterior, está tudo aqui: as influências de sons setentistas e de blues, mas com um olhar mais contemporâneo que remete tanto ao Dead Weather quanto ao Audioslave; a diversidade de timbres guitarrísticos, que inclui efeitos de pedal pog; o peso e precisão da cozinha; a inserção de elementos eletrônicos por detrás ou ao lado da massa de barulho; e, claro, os vocais cada vez melhores de Emmilly, uma das grandes vocalistas do rock nacional atual.

A produção da experiente Sylvia Massy (a banda viajou para gravaro álbum nos EUA, graças a um crownfunding) casou perfeitamente com as pretensões da banda, encaixou uma série de novos elementos aos arranjos, mas manteve intactas as qualidades inerentes à sonoridade do quinteto, um exemplo disso é na faixa “Elefant”, que começa como uma baladinha melosa, quase pop, com toques orientais e depois descamba para o lado pesado característico.

“Unlikely” é um dos melhores álbuns do rock nacional não só de 2017, mas de muitos anos. Emilly deixa claras as intenções da banda na letra de “Monkey”, uma das melhores faixas do álbum: “eu sou de Natal, nunca iremos desistir até que ganhemos tudo”.

:: NOTA: 8,2

:: Ouça o álbum na íntegra:

:: Assista abaixo ao videoclip de “Cobra”:

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