SHAME – Songs of Praise (2018)


“Álbum de estreia dos britânicos Shame é uma bela surpresa a se ter cautela”

Jovens ingleses na casa dos vinte anos cheios de vitalidade fazendo música com duas guitarras, baixo marcante, um vocalista que se entrega na interpretação das canções e letras bem sacadas, quantas vezes você já viu isso antes? Se você tem mais de 40 anos, provavelmente várias; se ainda está na faixa dos 20, talvez essa seja a primeira. Para os primeiros, o olhar para o quinteto londrino tem grande chance de ser de desconfiança e até preconceito. Já os outros olharão como uma grata surpresa, uma banda para guardar no coração. Ambos estarão certos.

“Songs of Praise”, o debut dos britânicos Shame, não deixa de ser uma bela surpresa a ser “olhada” com um misto de surpresa e também alguma cautela. Não se deve cair na armadilha de colocar os rapazes como “the next big thing” (a próxima grande banda) a sair da terra da rainha, ou a banda que irá “salvar o rock”, esse discurso está muito gasto. Que fique claro, a dita cautela em nada tem a ver com a música do grupo, mas com os exageros tão comuns da imprensa e até do público, a primeira vive de sensacionalismos e exageros, algo que muitas vezes interfere no processo natural de desenvolvimento de uma banda. E o público, muitas vezes, vive carente de uma banda para adorar, para chamar de sua.

No caminho do meio, algo tão enfatizado pelo budismo, há que se reconhecer o mérito da jovem banda. Construíram um álbum equilibrado, onde ao longo de dez canções explicitam uma série de referências que começam no final dos anos 70 e chegam até os anos 2000, sem que se possa fixar precisamente em nenhuma delas. Se nos momentos em que os vocais de Charlie Steen são mais falados do que cantados podem parecer com Mark Smith (The Fall), em outros podem também remeter a Nick Cave na fase do Birthday Party, quando se tornam mais “possessos”. Apesar de ao longo do disco apresentar facetas que vão além dessas duas citadas. Já musicalmente as referências vão desde o pós-punk 70/80, passando por Pixies, brit-pop e releituras do próprio pós-punk sob a ótica das bandas da década de 00’s, vide Editors.

Uma banda que pode ser considerada irmã da Shame? O quarteto de Leeds, Post War Glamour Girls, cujas referências musicais são as mesmas, mas com uma interpretação mais teatral nos vocais. No quesito urgência nos riffs de guitarra, a sugestão é Savages, de Jehnny Beth.

De volta a “Songs of Praise”, é um álbum que corre solto, que acelera e desacelera nos momentos exatos. A distribuição de faixas é precisa e acertada.

Isso faz com que se vá do ponto de partida, com “Dust on Trail”, e se alcance o de chegada, com “Angie”(mesmo nome de uma canção dos Rolling Stones e uma das melhores do álbum), sem aquela vontadezinha tão comum atualmente de pular para a próxima faixa. Ao contrário, por ter apenas trinta e oito minutos, espera-se que venha algo mais, quando na verdade o álbum já acabou. Bons álbuns não são assim?

É um álbum de muitas nuances. Pode-se esbarrar no brit-pop de matizes não ortodoxas em “Friction”, que de alguma forma lembra os americanos do Television; na torrente de guitarras de “Gold Hole”; ou no lado mais melódico da banda em “One Rizla”, outro grande momento do disco, onde na letra Steen canta sobre a sua voz: ” My nails ain’t manicured/My voice ain’t the best you’ve heard/And you can choose to hate my words/But do I give a fuck”; ou o senso de urgência de “Concrete”com um diálogo entre o vocalista e o baixista Josh Finerty e riffs de guitarras esparsos.

“One Rizla” é um dos singles do álbum e também uma das faixas mais cativantes, com os vocais de Steen mais berrados que nunca, lembrando Johnny Rotten (Sex Pistols). Já em “The Lick”, uma das canções de pegada mais densa tem uma letra que ironiza a busca desenfreada por baixar canções em MP3 e a perda do “contato real”: “Então, por que você não se senta no canto do seu quarto? Sente-se no canto do seu quarto e baixe a próxima melhor faixa para o seu dispositivo MP3. Tão sinceramente recomendada pelo New Musical Express.Você pode pegá-lo.Conecte e prepare-o para material de roaming grátis antes de conhecê-lo”.

A frase “grandes expectativas geram grande frustrações” parece sempre rondar nossa cabeça, um sinal de alerta para julgamentos apressados. Ao mesmo tempo, não se deve culpar Shame de nada, estão buscando seu lugar ao sol na música pop, e seu álbum de estreia tem qualidade suficientes para isso, o burburinho que vem causando desde o seu lançamento atesta isso. Ouça e tire suas conclusões.

:: NOTA: 8,3

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:: FAIXAS:
01. Dust on Trial
02. Concrete
03. One Rizla
04. The Lick
05. Tasteless
06. Donk
07. Gold Hole
08. Friction
09. Lampoon
10. Angie

 

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:: Assista abaixo ao vídeo de “One Rizla”:

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