‘Autoluminescent: Rowland S. Howard’ homenageia guitarrista australiano


Foto de Rowland S. Howard

Rowland S. Howard escreveu “Shivers”, considerada por muitos sua grande e insuperável composição, quando tinha dezesseis anos. A faixa fazia parte do repertório de uma de suas primeiras bandas, o Young Charlatans, que mantinha com o também guitarrista e vocalista Ian ‘Ollie’ Olsen.  A canção viria a ser gravada pelo The Boys Next Door, banda de Nick Cave que Howard se juntaria em 1978. “Essa canção é realmente extraordinária”, afirmaria Cave anos depois. “Não fui capaz de  fazer justiça a essa música, especialmente ali. Rowland deve ter se contorcido um pouco toda vez que eu cantava. Na verdade eu deveria ter deixado ele cantar…”. A faixa viria a ganhar diversas versões, incluindo da também australiana Courtney Barnett, em 2015.

Figura importante da cena Punk/Pós-Punk de Melbourne no final da década de 70, Howard logo chamou a atenção por suas declarações pretensiosas, personalidade forte, e sua maneira totalmente original de tocar guitarra. Seus riffs secos e uso de dissonâncias e feedback viriam a se tornar sua marca registrada,  eternizado especialmente nos trabalhos com o The Birthday Party, mas também presente na parcerias (com Lydia Lunch e Niki Sudden), em seus projetos subsequentes (Crime and the City Solution, These Immortal Souls) e em seus dois álbuns solo (Teenage Snuff Film e Pop Crimes). Nesse quesito, Autoluminescent: Rowland S. Howard (2011) é perfeito em sua narrativa cronológica, trazendo até o Howard produtor do disco da banda HTRK, ainda que falhe em esclarecer pontos importantes do Howard músico e ofereça pouco em relação a pessoa de Howard.

Autoluminiscent Documentary Poster

O formato adotado no filme dos diretores Lynn-Maree Milburn e Richard Lowenstein – responsável pelo documentário We’re Living’ on Dog Food, sobre a cena alternativa australiana no final dos anos 70 -, de entrevistas entrecortadas por imagens,  cambaleia ao usar desse saturado artifício, embora não caia. É exagerado querer comparar, por exemplo, com o documentário 20.000 Days on Earth (2014), sobre Nick Cave. São personagens bem diferentes em contextos totalmente diferentes. Autoluminescent segue mais pelo caminho da homenagem.

Se estilisticamente o documentário pouco tem a oferecer, seu “personagem” e objetivo é de extrema riqueza, e acerta em cheio ao resgatar sua influência pouco comentada, mas muito percebida em muitas banda. É que o formato totalmente convencional não se coaduna com a trajetória de Howard, músico e homem de passos erráticos e sensibilidade extremada. E mais que a música que embala o filme do início ao final, o próprio artista “oferece” todo o lado poético que envolve parte da narrativa, com trechos de seu romance não publicado, ETCETERACIDE, esse sim um dos grandes acertos e escolhas do filme, que é envolto em certa melancolia, sentimento bastante presente nas próprias canções de Howard.

Os  momentos mais clareadores são trazidos por Nick Cave, que esclarece como a sua entrada no The Boys Next Door mudou completamente a sonoridade da banda. O que Nick e nem o documentário esclarece com precisão são os motivos do fim The Birthday Party, algo que nem o próprio demonstra entender com precisão. No fim, o que houve foi uma briga entre o ego de Nick Cave e o de Howard, que tornou a situação insustentável dentro da banda. Fato é que Mick Harvey funcionou como mediador: seguiu com Cave no Bad Seeds e se ofereceu para tocar bateria no reformado Crime and The City Solution, do qual Howard passou a fazer parte. A tecladista Genevieve McGuckin, que conviveu por bastante tempo com o músico, é das que conseguem trazer uma panorama amplo e detalhado sobre a personalidade de Rowland, inclusive sobre seu envolvimento com drogas e a tentativa de abandonar o vício, bem como os irmãos Harry e Angela, que comentam sobre a relação difícil com o pai, especificamente no retorno para a Australia após os anos difíceis da Inglaterra após o fim do The Birthday Party.

Os registros de apresentações e as declarações do próprio músico em entrevistas feitas em épocas diversas de sua carreia são também muito preciosas não só por conta os acontecimentos a partir de sua perspectiva, mas também por deixar transparecer em seu semblante parte de seu estado físico e psicológico. Em determinado momento, ele comenta quase às lágrimas sobre a versão de “You Are My Sunshine” feita por Brian Ferry e o quanto ela lhe soa dolorosa; ou as dificuldades e decepções quando o The Birthday Party mudou para Londres, a frustrante turnê americana de três shows e 25 minutos somados de apresentação. Mas o mais curioso é a acolhida calorosa recebida em Berlim, tornando-se influentes na cena local, que rendeu até participação no filme Asas do Desejo, de Win Wenders (outro dos entrevistados), embora o The Birthday Party já tivesse acabado e Nick Cave formado o The Bad Seeds com Blixa Bargeld (Einstürzende Neubauten) na guitarra em detrimento de Rowland.

Rowland Howard com sua guitarra Jaguar

“Autoluminescent” é um registro altamente recomendado e extremamente necessário na tentativa de fazer jus a carreira de Rowland S. Howard, influente na mesma medida que pouco reconhecido ou comentado. Basta analisar a longa lista de músicos ou não que lhes prestam homenagens: Bobby Gillespie, Henry Rollins, Thurston Moore, Barry Adamson e tantos outros, o que sinaliza sua contribuição para a música alternativa, muitos “tocados” pelo seu trabalho único nas seis cordas.

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Sua aparência frágil, cabelo desgrenhado/espetado, presença quase teatral no palco, com jeito trôpego de se movimentar, como que possuído ao empunhar sua guitarra (geralmente uma Jaguar), cigarro na boca e olhar entre o absorto e o espanto no expressivo azul dos olhos seguem imortalizados, quase como uma figura romântica.


TRAILER DO DOCUMENTÁRIO:


APRESENTAÇÃO EM CARREIRA SOLO:

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