Mojica, um poeta no mundo do Horror


Foto de José Mojica, o Zé do Caixão

José Mojica Marins (Zé do Caixão), veio ao mundo em uma sexta-feira 13, em março de 1936. Filho de um zelador de cinema na zona oeste de São Paulo, começou muito cedo suas experiências com a câmera. Com doze anos produziu uma série de filmes amadores com ajuda de amigos. Mojica já demonstrava talento e um apreço pelo gênero do terror escatológico. Chegou até a fundar uma escola de atores, aonde usava aranhas e bichos de verdade para testar a coragem dos atores. Um detalhe que ele trouxe para suas obras mais famosas.

Sua primeira obra relevante surgiu em 1964. Mojica contava que em uma noite havia sonhado com um coveiro que o puxava de sua cama e o levava até seu túmulo. O sonho resultou no roteiro de A Meia Noite Levarei sua Alma (1964), filme que trouxe ao mundo seu personagem mais incógnito e aterrorizante: Zé do Caixão, um ser gótico de unhas assustadoras, com uma cartola na cabeça. Um coveiro descrente da fé cristã, amaldiçoava a cidade com suas pragas e aterrorizava a população com sua busca doentia pela mulher que lhe daria um filho perfeito, matando quem se colocasse em seu caminho. A obra foi reconhecida internacionalmente, vencendo os prêmios Especial no Festival Internacional de Cine Fantástico y de Terror Sitges (1973), prêmio L’Ecran Fantastique pela originalidade (1974) e Tiers Monde na III Convention du Cinéma Fantastique (1974).

Um detalhe curioso, Mojica só foi ter o reconhecimento merecido por aqui, após sua obra ser lançada e cultuada no exterior. O cara era adorado por Johnny Ramone, Rob Zombie, e citado por várias bandas. O diretor norte-americano Tim Burton o classificou na década de 90 como: “a maior descoberta do gênero”. Grandes cineastas como Gaspar Noé e Darren Aronofsky cultuavam suas obras. O Despertar da Besta (1969) foi um dos filmes que colocou um belo sorriso no rosto de Paul Scharader, roteirista de Taxi Drive.

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Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver (1966) é considerado uma obra-prima de Mojica. O filme é a continuação de A Meia Noite Levarei sua Alma (1964) e pode-se dizer que o longa é quase um remake do seu predecessor. Mas as coisas se encaixam e funcionam melhor. Zé do Caixão, que antes era apenas um “simples” serial killer, agora age motivado por convicções ideológicas e filosóficas. O filme foi uma das primeiras vítimas da censura imposta pela Ditadura Militar aqui no Brasil, que obrigou Mojica a alterar e acrescentar um final “estúpido” e bizarro para o personagem de Zé do Caixão. Mojica viria a “corrigir” o erro no filme A Reencarnação do Demônio (2008), que encerra a trilogia do personagem de Zé do Caixão.

Mojica foi muito mais do que um artista, um poeta do mundo do horror que trouxe seu lirismo gótico para as telas do cinema fazendo arte com baixos recursos.

Cinema com C maiúsculo. Suas obras fazem um convite para embarcar em uma viagem delirante e visceral. Quem conheceu e conviveu com ele sabe que foi um homem dotado de simplicidade e de um coração generoso, um apaixonado pela arte. Para ele o que importava era o cinema e nada mais. Além de produzir e atuar em dezenas de filmes, foi apresentador de televisão, fez filmes de faroeste, dramas, filmes infantis, produziu quadrinhos e peças. Criou personagens fabulosos e histórias que foram muito além da imaginação.

André Barcinski co-autor ao lado de Ivan Finotti, da biografia Maldito – A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão (1998), afirmou: “Ele foi um segundo pai para mim, é padrinho da minha filha e me ensinou as maiores lições de vida”.

Mojica se foi no dia 19 de fevereiro, aos 83 anos, vai deixar saudades. Cumpriu seu propósito de vida com maestria e genialidade. Deixou um legado de obras que serão eternas na alma dos amantes de filmes de horror. Um astro considerado o Rei do Cinema de Terror Nacional. Influenciou gerações pelo mundo a fora. É, Mojica, você finalmente montou seu foguete e foi para lua.


:: Assista entrevista com o cineasta:


 

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