ARIEL PINK – Dedicated To Bobby Jameson (2017)


“O lo-fi como filosofia e o retrô como aposta para o futuro”

Ao dedicar seu mais novo álbum ao cantor Bobby Jameson, Ariel Marcus Rosenberg AKA Ariel Pink levanta para todos a questão: Quem é Bobby Jameson? Porque dedicar um álbum a ele? Jameson faleceu em 2015, aos setenta anos. Teve uma carreira tortuosa como cantor, embora tudo indicasse que poderia vir a fazer sucesso na década de 60, o que não aconteceu. Sumiu por uns tempos e reapareceu em 2007, quando criou um canal no Youtube e um blog para falar sobre sua vida, fazer sua própria biografia. Suas postagens tem momentos realmente tristes.

Segundo Ariel, ele chegou até Jameson através de uma amiga, que o conhecia, e que sentiu grande atração pela história do músico, que àquela altura (2016) já havia falecido, chegando a ler todas as postagens feitas por Jameson. “I think there’s a little bit of Bobby Jameson in most people. With the name, it’s a perfect example. Across releases, there was never the same name” (ACho que um pouco de Bobby Jameson em muitas pessoas. No nome, é um exemplo perfeito. Através dos lançamentos, não havia nunca o mesmo nome), afirma Ariel.

Não deixa de haver certa similaridade na trajetória de ambos. Jameson teve vários nomes artísticos: Chris Lucey, Bobby James, Jameson. Sua obra acabou ficando diluída e muitos dos seus trabalhos não foram identificados com a sua pessoa. Ariel Pink também já foi Ariel Rosenberg em seu primeiro álbum, Ariel Pink’s Haunted Graffiti até o seu álbum ‘Mature Themes”, de 2012, e hoje apenas Ariel Pink. Por sinal, o músico afirma que sua cor preferida, ao contrário do que se possa pensar, é azul e não rosa. Afirma também estar vacinado em relação às peças que a vida no mundo musical prega.

Com uma carreira discográfica que vem desde o final dos anos 90, e uma música que gosta de soar retrô, como se tivesse sido feita décadas atrás e com equipamentos  precários, Ariel Pink se esbalda em canções que soam totalmente lo-fi, agregando tanto elementos psicodélicos sessentistas quanto da black music setentista. “Time to Meet Your God”, por exemplo, é um desvairio psicodélico que bem poderia entrar na coletânea Nuggets, de bandas psicodélicas obscuras dos anos 60. Teclados retrôs, qualidade de gravação soando tosca, e clima totalmente alucinado. Em seus shows o psicodelismo ganha contornos mais fores, com a projeção de imagens viajantes de fundo.

Engana-se quem pensar que o álbum segue uma tendência única, há de tudo um pouco no álbum, inclusive momentos mais acessíveis como na apaixonada “Fells Like Heaven”,  que tem uma irmã dentro do próprio álbum, “Kitchen Witch”, outra das faixas interessantes do álbum.

A cada passo Ariel parece querer surpreender e provocar certo desconcerto em seu ouvinte e esse vai e vem de gêneros e sonoridades percorre todo o disco, de forma que “Death Patrol” soa como um funk/soul lo-fi desconjuntado; “Santa’s in the Closet” um synth-pop de tons oitentistas; e “Dedicated to Boby Jameson” um boogie psicodélico que lembra ‘Light my Fire”, do The Doors, seja pelo uso do teclado Hammond ou pelo solo de guitarra com mesmo timbre.

Se há algo que une as canções do álbum são os elementos psicodélicos que vão mas estão sempre voltando em uma outra canção, seja em “Another Weekend”, “Dreamdate Narcissist” ou na acústica “Do Yourself a Favor”, cuja conexão é com algo feito por Syd Barret. A sonoridade com elementos propositadamente retrô e gravação com clima lo-fi também está em todas as treze faixas do álbum, ganham mais força em “I Wanna Be Young”, com tecladinhos estilo antigo e um baixo de sonoridade totalmente setentista. São elementos não muito usuais, mas que já de algum tempo tem angariado fãs e atraído outros artistas para este universo, que algum crítico resolveu chamar de hypnagogyc pop. O estado hipnagógico é aquele em que a pessoa está entre o dormindo e acordado. Nesse caldeirão incluem-se nomes como Neon Indian e Toro Y Moi.

A música é um terreno artístico interessante por essas e outras: com toda a tecnologia disponível, você pode tentar fazer a sua música o mais “moderna” e hi-fi possível; por outro lado, alguns artistas preferem fazer o caminho contrário, querer apontar para o futuro usando a tecnologia para soar o mais retrô que se possa, seja sesentista, setentista ou oitentista. Ariel Pink e outros artistas vem fazendo isso já de algum tempo, embora o resultado nem sempre seja surpreendente, não deixa de ser interessante. Afinal, nadar contra a corrente é um troço complicado, Ariel Pink sabe disso mas segue insistindo. Pontos para ele.

NOTA: 7,2

:: FAIXAS:
01. Time To Meet Your God
02. Feels Like Heaven
03. Death Patrol
04. Santa’s In The Closet
05. Dedicated To Bobby Jameson
06. Time To Live
07. Another Weekend
08. I Wanna Be Young
09. Bubblegum Dreams
10. Dreamdate Narcissist
11. Kitchen Witch
12. Do Yourself A Favor
13. Acting (feat. DāM-Funk)

:: Assista abaixo ao vídeo de “Feels Like Heaven”:

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