{"id":24308,"date":"2023-08-24T18:58:51","date_gmt":"2023-08-24T21:58:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.urgesite.com.br\/?p=24308"},"modified":"2023-08-24T22:52:46","modified_gmt":"2023-08-25T01:52:46","slug":"jeff-tweedy-um-genio-em-50-cancoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.urgesite.com.br\/?p=24308","title":{"rendered":"Jeff Tweedy: Um G\u00eanio em 50 Can\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><span class='vw-dropcap vw-dropcap-circle'>I<\/span>niciando a coluna \u201cG\u00eanios em 50 can\u00e7\u00f5es\u201d com o p\u00e9 direito, contamos a trajet\u00f3ria do genial Jeff Tweedy, um dos grandes nomes do Rock Alternativo americano, por meio de suas can\u00e7\u00f5es. E em ordem crescente para criar aquele suspense b\u00e1sico.<\/p>\n<p>Prol\u00edfico e incapaz de escrever uma m\u00fasica ruim, Jeff Tweedy tem uma obra ultra consistente, e posso dizer para voc\u00eas que escolher somente 50 m\u00fasicas foi uma tarefa \u00e1rdua. Espero que curtam a lista, que inclui can\u00e7\u00f5es de suas bandas principais (Wilco e Uncle Tupelo), projetos paralelos (Loose Fur, Golden Smog e Tweedy) e de seus discos solo.<\/p>\n<p>Divirtam-se!<\/p>\n<hr \/>\n<p><span class='vw-dropcap vw-dropcap-box'><strong>50<\/strong><\/span> <strong>Pieholden Suite <\/strong>(<em>Summerteeth<\/em>, Wilco, 1999)<br \/>\nA parceria Jay Bennett-Jeff Tweedy se aprofunda de maneira significativa no terceiro \u00e1lbum do Wilco. Os dois entram de cabe\u00e7a nas experimenta\u00e7\u00f5es de est\u00fadio inspirados pelos discos do <strong>Beach Boys<\/strong>, e o resultado \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o meticulosa, com v\u00e1rias camadas, texturas e harmonias vocais, se aproximando do Chamber Pop e se distanciando do Country Rock ao qual o grupo estava vinculado. \u00c9 m\u00fasica para se apreciar com fones de ouvido, como em &#8220;Pieholden suite&#8221;, uma bela pe\u00e7a cheia de nuances e com final suntuoso.<\/p>\n<p><strong>49.<\/strong> <strong>Dawned on Me <\/strong>(<em>The Whole Love<\/em>, Wilco, 2011)<br \/>\nEvocando o Soft Rock dos anos 1970, essa faixa de destaque do n\u00e3o muito brilhante <em>The Whole Love<\/em> tem um dos refr\u00f5es mais chicletudos j\u00e1 criados por Jeff Tweedy.<\/p>\n<p><strong>48.<\/strong> <strong>Low Key <\/strong>(<em>Sukirae<\/em>, Tweedy, 2016)<br \/>\nO filho mais velho de Jeff Tweedy, Spencer, tamb\u00e9m \u00e9 m\u00fasico e toca bateria com o pai desde muito pequeno. Em 2015, Jeff decidiu fazer um disco com o filho e batizou o duo de Tweedy. Nessa \u00e9poca, Sue Miller, esposa de Jeff, teve c\u00e2ncer pela segunda vez, e o disco serviu como uma v\u00e1lvula de escape para a fam\u00edlia e teve o envolvimento ativo da pr\u00f3pria Sue e de Sammy, irm\u00e3o mais novo de Spencer, que ouviam as <em>demos<\/em> e davam sugest\u00f5es para as m\u00fasicas e letras. O resultado foi um \u00e1lbum muito agrad\u00e1vel e calmo, e fazer um disco com o filho refor\u00e7ou ainda mais o r\u00f3tulo de \u201cDad rock\u201d que j\u00e1 vinha sendo aplicado com frequ\u00eancia ao trabalho do Wilco desde o final da d\u00e9cada anterior. Preconceitos \u00e0 parte, o disco tem v\u00e1rios pequenos tesouros, e o mais precioso deles \u00e9 essa faixa em que Jeff exalta seu lado introspectivo: \u201cQuando parece que eu n\u00e3o ligo\/ Eu s\u00f3 estou tentando parecer descolado\u201d. Ah, e o nome estranho que batiza o registro \u00e9 o apelido de Sue no c\u00edrculo familiar, o que explica muita coisa. Nem sempre um artista tem que ser revolucion\u00e1rio e inovador, e a simplicidade pode ser um ativo valioso em tempos dif\u00edceis e atingir bem fundo na alma do p\u00fablico e do pr\u00f3prio artista.<\/p>\n<p><strong>47.<\/strong> <strong>I Got You (At the End of the Century) <\/strong>(<em>Being There<\/em>, Wilco, 1996)<br \/>\n<em>Being There<\/em> \u00e9 o disco mais pop do Wilco, e entre as v\u00e1rias faixas que deveriam ter se tornado grandes hits est\u00e1 esse Power Pop \u00e0 la <strong>Big Star<\/strong> (outra banda que deveria ter tido v\u00e1rios <em>hits<\/em>, por sinal), uma infectante can\u00e7\u00e3o de amor com refr\u00e3o inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>46.<\/strong> <strong>Hearts Hard to Find <\/strong>(<em>Cruel Country<\/em>, Wilco, 2022)<br \/>\nAp\u00f3s quase 30 anos de carreira, o Wilco decidiu em 2022 relembrar sua rela\u00e7\u00e3o com a Country Music, e o resultado foi um disco duplo que periga ser o melhor do grupo desde <em>Sky Blue Sky<\/em>. Entre os v\u00e1rios destaques est\u00e1 essa balada super sincera, em que o narrador lamenta ter um cora\u00e7\u00e3o insens\u00edvel em certas ocasi\u00f5es: &#8220;There &#8216;s something wrong with me\/ Maybe I&#8217;m just bad&#8221;.<\/p>\n<p><strong>45.<\/strong> <strong>The Ruling Class <\/strong>(<em>Born Again in the USA<\/em>, Loose Fur, 2006)<br \/>\nPara quem acha que o <strong>Loose Fur<\/strong> &#8211; projeto de Jeff Tweedy com <strong>Jim O\u00b4Rourke<\/strong> e <strong>Glenn Kotche<\/strong> &#8211; s\u00f3 fez m\u00fasicas esquisitas e de vanguarda, vale a pena conferir essa relaxada e despretensiosa faixa Country adornada por assobios e que tem uma letra surpreendente que retrata a volta de Jesus como um sujeito comum que bebe cerveja e tem que se preocupar com imposto de renda, assim como o restante da humanidade.<\/p>\n<p><strong>45. Radio King <\/strong>(<em>Down by the Old Mainstream<\/em>, Golden Smog, 1995)<br \/>\nEnquanto digeria o fim do <strong>Uncle Tupelo<\/strong> e arquitetava o in\u00edcio do Wilco, Jeff Tweedy se envolveu tamb\u00e9m na grava\u00e7\u00e3o do primeiro disco do coletivo <strong>Golden Smog<\/strong>, origin\u00e1rio de Minnesota, e que desde o final dos anos 1980 funcionava como um projeto paralelo de Rock raiz para integrantes de v\u00e1rias bandas. A faixa de encerramento desse \u00e1lbum \u00e9 \u201cRadio King\u201d, uma nost\u00e1lgica can\u00e7\u00e3o que celebra a rela\u00e7\u00e3o intensa entre f\u00e3 e \u00eddolo no auge da era do r\u00e1dio.<\/p>\n<p><strong>44.<\/strong> <strong>I&#8217;ll Fight <\/strong>(<em>Wilco<\/em>, Wilco, 2009)<br \/>\nO s\u00e9timo \u00e1lbum de est\u00fadio do Wilco \u00e9 o mais convencional e comercial de sua discografia. Abra\u00e7ando a popularidade em alta, a banda entrega uma cole\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es pop meticulosamente produzidas, mas que, em geral, n\u00e3o acrescentam muito \u00e0 sua reputa\u00e7\u00e3o art\u00edstica. &#8220;I&#8217;ll Fight&#8221; tem todos os ingredientes necess\u00e1rios para uma m\u00fasica de sucesso, e fica na cabe\u00e7a logo na primeira audi\u00e7\u00e3o. Num mundo paralelo em que Jeff Tweedy fosse um cara obcecado por sucesso, ela provavelmente seria o carro chefe de sua discografia. O \u00fanico momento do disco em que a banda arrisca fazer algo diferente \u00e9 em &#8220;Bull Black Nova&#8221;, que \u00e9 o segundo cap\u00edtulo da trilogia <a href=\"https:\/\/www.urgesite.com.br\/motorik-beat-klaus-dinger\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Krautrock<\/a> iniciada com &#8220;Spiders (Kidsmoke)&#8221; e complementada posteriormente com &#8220;Art of Almost&#8221;.<\/p>\n<p><strong>42.<\/strong> <strong>You Satellite <\/strong>(<em>Star Wars<\/em>, Wilco, 2015)<br \/>\nNos anos 2010, o Wilco entrou numa fase de menor experimenta\u00e7\u00e3o, criando discos mais introspectivos e menos ambiciosos. Entre os quatro \u00e1lbuns nessa d\u00e9cada, o mais ousado \u00e9 <em>Star Wars<\/em>, a come\u00e7ar pelo t\u00edtulo debochado. Tweedy at\u00e9 brincou que esperava um telefonema dos advogados de <strong>George Lucas<\/strong>, e que ficou frustrado por isso n\u00e3o ter acontecido. O \u00e1lbum \u00e9 irregular, mas tem bons momentos. Entre eles, essa faixa viajante no modo Shoegazer, com muito <em>feedback<\/em> e ebuli\u00e7\u00e3o lenta. Ela \u00e9 um ponto fora da curva no escopo criativo do grupo, o que \u00e9 surpreendente se levarmos em conta o qu\u00e3o diversificada \u00e9 a trajet\u00f3ria deles.<\/p>\n<p><strong>41.<\/strong> <strong>Radio Cure <\/strong>(<em>Yankee Hotel Foxtrot<\/em>, Wilco, 2002)<br \/>\nEssa \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o t\u00e3o visceral que toda vez que ela come\u00e7a eu tenho que parar tudo para ouvir com aten\u00e7\u00e3o. A batida inicial do bumbo sempre me lembra a de um cora\u00e7\u00e3o, e os versos de abertura (&#8220;Cheer up, honey, I hope you can&#8221;) me passam a ideia de que algu\u00e9m est\u00e1 doente. Mas a riqueza l\u00edrica \u00e9 t\u00e3o grande que \u00e9 poss\u00edvel se chegar a m\u00faltiplas interpreta\u00e7\u00f5es, entre elas a de que a m\u00fasica pode ser a cura para nossos males, tanto f\u00edsicos quanto emocionais. \u201cRadio Cure\u201d \u00e9 devastadora como poucas can\u00e7\u00f5es que eu conhe\u00e7o, e raramente tenho vontade de ouvi-la. Geralmente, ela aparece porque botei <em>Yankee Hotel Foxtrot<\/em> para tocar do in\u00edcio ao fim. E a cada audi\u00e7\u00e3o fico surpreso com a for\u00e7a descomunal que ela tem.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-24319\" style=\"font-size: 16px;\" src=\"https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Uncle-Tupelo.-Foto-Arquivos-de-Jeff-Tweedy-1.webp\" alt=\"Uncle-Tupelo\" width=\"1581\" height=\"988\" \/><br \/>\n<em>Uncle Tupelo | Foto: Arquivos de Jeff-Tweedy<\/em><\/p>\n<p><span class='vw-dropcap vw-dropcap-box'><strong>40<\/strong><\/span> <strong>Pot Kettle Black <\/strong>(<em>Yankee Hotel Foxtrot<\/em>, Wilco, 2002)<br \/>\nAs semelhan\u00e7as com &#8220;In Between Days&#8221;, do <strong>The Cure<\/strong>, s\u00e3o not\u00e1veis, mas &#8220;Pot Kettle Black&#8221; tem v\u00e1rios m\u00e9ritos que a distinguem do <em>megahit<\/em> de <strong>Robert Smith<\/strong> e seus comparsas. Entre eles, a capacidade de criar uma can\u00e7\u00e3o pop com versos t\u00e3o dif\u00edceis como &#8220;It\u00b4s become so obvious\/ You&#8217;re so oblivious to yourself&#8221;.<\/p>\n<p><strong>39. Love is the King <\/strong>(<em>Love is the King<\/em>, Jeff Tweedy, 2020)<br \/>\nO segundo disco solo de in\u00e9ditas de Jeff Tweedy foi lan\u00e7ado durante a pandemia, e teve como grande inspira\u00e7\u00e3o as mem\u00f3rias origin\u00e1rias da reda\u00e7\u00e3o de sua autobiografia. A soturna faixa-t\u00edtulo que abre o registro \u00e9 uma das melhores coisas feitas por Tweedy nos \u00faltimos 15 anos, e n\u00e3o fica nada a dever ao per\u00edodo \u00e1ureo de sua carreira.<\/p>\n<p><strong>38.<\/strong> <strong>New Madrid <\/strong>(<em>Anodyne<\/em>, Uncle Tupelo, 1993)<br \/>\nA alquimia entre Jeff Tweedy e Jay Farrar \u00e9 not\u00e1vel nessa balada Country sensacional, levada por guitarra e banjo. A tem\u00e1tica ins\u00f3lita se refere \u00e0 previs\u00e3o de um terremoto feita em 1990 na regi\u00e3o s\u00edsmica de New Madrid, no Meio-Oeste americano (perto de Belleville, cidade natal de Jeff e Jay), e que acabou n\u00e3o se concretizando.<\/p>\n<p><strong>37. Kamera <\/strong>(Y<em>ankee Hotel Foxtrot<\/em>, Wilco, 2002)<br \/>\nEssa balada existencial \u00e9 um dos momentos mais radiof\u00f4nicos de <em>Yankee Hotel Foxtrot<\/em>, e seu ritmo constante e agrad\u00e1vel faz com que o ouvinte seja sugado de forma irrevers\u00edvel. A letra cr\u00edptica \u00e9 narrada por algu\u00e9m claramente atormentado, mas a contrapartida musical n\u00e3o reflete em nada essa confus\u00e3o mental, servindo como ant\u00eddoto para nossas ansiedades do dia-a-dia.<\/p>\n<p><strong>36. Bright Leaves <\/strong>(<em>Ode to Joy<\/em>, Wilco, 2019)<br \/>\nA faixa de abertura do d\u00e9cimo primeiro disco do Wilco n\u00e3o combina em nada com o que o t\u00edtulo do \u00e1lbum promete. N\u00e3o h\u00e1 nada de divers\u00e3o ou alegria em \u201cBright Leaves\u201d, que se arrasta de forma lenta por meio de sua percuss\u00e3o tribal e instrumenta\u00e7\u00e3o contida, o que gera uma atmosfera carregada de tens\u00e3o. A tem\u00e1tica abordada \u00e9 a de um relacionamento desgastado, e ao eu l\u00edrico resignado s\u00f3 resta a constata\u00e7\u00e3o final: \u201cYou never change\u201d.<\/p>\n<p><strong>35. Passenger Side <\/strong>(<em>A.M.<\/em>, Wilco, 1995)<br \/>\nO alcoolismo sempre assombrou a fam\u00edlia Tweedy, come\u00e7ando pelo pai e atingindo os irm\u00e3os de Jeff. Ele conseguiu largar a bebida aos 23 anos, pois viu o estrago que ela poderia fazer. Anos depois, comp\u00f4s essa balada c\u00f4mica em que um b\u00eabado chato reclama do amigo motorista e quer assumir o volante do carro de qualquer jeito. S\u00f3 que ele teve a carteira cassada e o julgamento que pode devolver sua permiss\u00e3o vai ser em breve. O tema \u00e9 delicado, mas a abordagem leve garante a divers\u00e3o sem deixar de tocar na ferida.<\/p>\n<p><strong>34. Hate it Here <\/strong>(<em>Sky Blue Sky<\/em>, Wilco, 2007)<br \/>\n<em>Sky Blue Sky<\/em> n\u00e3o teve uma recep\u00e7\u00e3o muito calorosa quando foi lan\u00e7ado. Muita gente adorou, mas v\u00e1rios cr\u00edticos e parte do p\u00fablico torceram o nariz para aquela vers\u00e3o mais \u201clight\u201d e radiof\u00f4nica do Wilco, com menos experimenta\u00e7\u00f5es e maior simplicidade l\u00edrica e, at\u00e9 certo ponto, musical. Uma das raz\u00f5es para essa mudan\u00e7a foi o desgaste de Jeff Tweedy ap\u00f3s sua batalha contra o v\u00edcio em medicamentos, e ele decidiu simplificar sua abordagem com rela\u00e7\u00e3o ao disco, enfatizando as grava\u00e7\u00f5es ao vivo em est\u00fadio, sem <em>overdubs<\/em>. O disco tamb\u00e9m foi o primeiro no qual a express\u00e3o depreciativa \u201cDad Rock\u201d foi utilizada para descrever o som da banda, e uma das m\u00fasicas que simbolizava essa sonoridade, na vis\u00e3o dos cr\u00edticos, era &#8220;Hate it Here&#8221;. O amor pelos <strong>Beatles<\/strong>, e especialmente pela carreira solo de <strong>John Lennon<\/strong>, fica bem evidente nessa balada emotiva guiada por teclados e que tem uma letra quase tragic\u00f4mica sobre um cara que tenta sobreviver \u00e0 separa\u00e7\u00e3o se engajando com tarefas do dia a dia, como lavar as roupas e as lou\u00e7as e dobrar os len\u00e7\u00f3is. \u00c9 pop e despretensiosa, vai direto ao ponto, e, vamos combinar, \u00e9 totalmente irresist\u00edvel. Se \u201cDad Rock\u201d \u00e9 bom assim, ent\u00e3o viva o \u201cDad Rock\u201d!<\/p>\n<p><strong>33. Red-Eyed and Blue <\/strong>(<em>Being There<\/em>, Wilco, 1996)<br \/>\nEssa balada dolorida \u00e9 linda de morrer, e ela faz refer\u00eancia direta \u00e0s dificuldades enfrentadas pelo compositor dentro do est\u00fadio, sentindo falta de sua amada e se afundando em drogas. Tweedy gosta de desmistificar essa quest\u00e3o de que o sofrimento \u00e9 fonte para a cria\u00e7\u00e3o. Ele diz que cria n\u00e3o por causa da dor, mas apesar dela. E essa can\u00e7\u00e3o \u00e9 a prova de que, mesmo em momentos turbulentos, o talento e a inspira\u00e7\u00e3o podem sobressair. Adoro a vulnerabilidade que ele transmite logo no in\u00edcio, ao pigarrear antes de iniciar a m\u00fasica. Coisa de g\u00eanio.<\/p>\n<p><strong>32. Either Way<\/strong> (<em>Sky Blue Sky<\/em>, Wilco, 2007)<br \/>\nSeguindo a tradi\u00e7\u00e3o de escolher faixas de abertura perfeitas, o Wilco mostra sua nova cara ap\u00f3s a reabilita\u00e7\u00e3o de Jeff Tweedy do v\u00edcio em medicamentos e da entrada de Nels Cline e Pat Sansone no grupo. \u201cEither way\u201d \u00e9 doce e delicada, e sua mensagem simples \u00e9 a seguinte: \u201cdeixe a vida te levar.\u201d E a \u201cconversa\u201d entre o violino de Karen Waltuch e a guitarra solo de Nels Cline \u00e9 de uma beleza \u00edmpar.<\/p>\n<p><strong>31. I&#8217;m Always in Love<\/strong> (<em>Summerteeth<\/em>, Wilco, 1999)<br \/>\nNum mundo perfeito, essa m\u00fasica seria um single de grande sucesso. Se bem que o <em>riff<\/em> de teclado pegajoso talvez seja estridente demais para alguns ouvintes. No mais, estamos diante de uma can\u00e7\u00e3o pop perfeita e descomplicada, uma ode ao amor que clama por audi\u00e7\u00f5es repetidas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_24321\" aria-describedby=\"caption-attachment-24321\" style=\"width: 1270px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-24321\" src=\"https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Wilco-em-Nova-York-Dezembro-de-96-Jeff-Tweedy-Jay-Bennett-John-Stirratt-and-Ken-Coomer-Foto-Ken-Weingart-Arquivos-de-Michael-Ochs-Getty-Images-e1692911806330.jpg\" alt=\"Wilco-em-Nova-York-Dezembro-de-96\" width=\"1280\" height=\"922\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-24321\" class=\"wp-caption-text\"><em>Wilco em Nova Iorque, dezembro de 1996 | Foto: Ken Weingart \/ Arquivos de Michael Ochs \/Getty Images<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><span class='vw-dropcap vw-dropcap-box'><strong>30<\/strong><\/span> <strong>Gun<\/strong> (<em>Still Feel Gone<\/em>, Uncle Tupelo, 1991)<br \/>\nQuando Jeff Tweedy conheceu Jay Farrar no col\u00e9gio, parecia m\u00e1gica: eles eram os \u00fanicos f\u00e3s de Punk e apaixonados por m\u00fasica alternativa no contexto social da pequena Belleville. Jay j\u00e1 dominava a guitarra e tinha uma banda com os irm\u00e3os mais velhos, e Jeff acabou encontrando um lugar nela como baixista. \u201cGun\u201d \u00e9 uma das primeiras m\u00fasicas compostas por Jeff, e entrou no segundo disco da banda que foi batizada de <strong>Uncle Tupelo<\/strong>, e que rapidamente se tornou refer\u00eancia numa mistura de Punk e Country e ajudou a batizar um novo g\u00eanero musical: o Alt-Country. A paix\u00e3o pelos <strong>Replacements<\/strong> fica evidente na can\u00e7\u00e3o, que foi inspirada pela frustra\u00e7\u00e3o de Jeff ao descobrir que sua primeira namorada o havia tra\u00eddo.<\/p>\n<p><strong>29. How to Fight Loneliness <\/strong>(<em>Summerteeth<\/em>, Wilco, 1999)<br \/>\nA melodia \u00e9 de chorar e o solo de piano de Jay Bennett \u00e9 das coisas mais tristes que j\u00e1 ouvi na vida. E a letra que prop\u00f5e uma receita para se livrar da solid\u00e3o \u00e9 de uma ironia fina: &#8220;Just smile all the time&#8221;. Em resumo, essa n\u00e3o \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o para combater a solid\u00e3o, mas sim para cultiv\u00e1-la. Parece depressivo, mas pode ser glorioso se voc\u00ea est\u00e1 no <em>mood<\/em> adequado.<\/p>\n<p><strong>28. War on War<\/strong> (<em>Yankee Hotel Foxtrot<\/em>, Wilco, 2002)<br \/>\n\u00c9 dif\u00edcil um disco t\u00e3o aclamado por sua revolu\u00e7\u00e3o art\u00edstica e experimenta\u00e7\u00e3o como <strong>Yankee Hotel Foxtrot<\/strong> tamb\u00e9m conter tantas m\u00fasicas palat\u00e1veis. &#8220;War on War&#8221;, \u00fanica m\u00fasica de trabalho do registro, \u00e9 uma del\u00edcia pop em que a letra pessimista \u00e9 contrabalan\u00e7ada pela melodia bela e contagiante. E \u00e9 por isso que Art-Pop talvez seja o melhor r\u00f3tulo para definir esse \u00e1lbum.<\/p>\n<p><strong>27. Monday<\/strong> (<em>Being There<\/em>, Wilco, 1996)<\/p>\n<p>Charlie \u00e9 o personagem dessa m\u00fasica divertida em que o Wilco ativa o modo <strong>Rolling Stones<\/strong>. O cara \u00e9 um roqueiro que s\u00f3 pensa em drogas e divers\u00e3o, e que n\u00e3o entende como sua carreira ainda n\u00e3o decolou. <em>Riff<\/em> certeiro e naipe de metais s\u00e3o a cereja do bolo da faixa, que foi o segundo single lan\u00e7ado do \u00e1lbum <em>Being There<\/em> e, ironicamente, n\u00e3o logrou \u00eaxito nas paradas de sucesso.<\/p>\n<p><strong>26. California Stars<\/strong> (<em>Mermaid Avenue<\/em>, Billy Bragg &amp; Wilco, 1998)<br \/>\nO Wilco ainda estava em sua inf\u00e2ncia quando foi convidado pelo m\u00fasico brit\u00e2nico de Folk <strong>Billy Bragg<\/strong> para ser banda de apoio em um projeto: transformar letras in\u00e9ditas do lend\u00e1rio cantor Folk <strong>Woody Guthrie<\/strong> em m\u00fasica. Inicialmente, o convite n\u00e3o soou bem para Jeff Tweedy (ele brinca, em sua autobiografia, que n\u00e3o queria o Wilco fosse banda de apoio de ningu\u00e9m que n\u00e3o fosse <strong>Neil Young<\/strong> ou <strong>Bob Dylan<\/strong>), mas a parceria se efetivou e gerou tr\u00eas \u00f3timos discos. Tweedy diz que uma das li\u00e7\u00f5es que aprendeu com os escritos de Guthrie, que inclu\u00edam frases motivacionais, \u00e9 a seguinte: &#8220;Escrever uma m\u00fasica por dia&#8221;. Talvez seja por isso que Jeff tenha se tornado um compositor t\u00e3o prol\u00edfico, que n\u00e3o espera que a inspira\u00e7\u00e3o apare\u00e7a. Ele trabalha duro e quase diariamente no intuito de fazer m\u00fasica, e cria mais do que pode gravar. Entre as joias criadas pelo projeto se destaca a delicada e ensolarada &#8220;California Stars&#8221;, que at\u00e9 hoje \u00e9 presen\u00e7a quase garantida no setlist do Wilco.<\/p>\n<p><strong>25. Ashes of American Flags<\/strong> (<em>Yankee Hotel Foxtrot<\/em>, Wilco, 2002)<br \/>\nJeff Tweedy n\u00e3o \u00e9 um compositor conhecido por fazer letras politizadas ou de cr\u00edtica social mais expl\u00edcita. Suas letras tratam mais do aspecto emocional, do espectro filos\u00f3fico ou da an\u00e1lise de rela\u00e7\u00f5es pessoais. <em>Yankee Hotel Foxtrot<\/em> \u00e9 o disco em que Tweedy adota uma abordagem mais voltada para quest\u00f5es de maior amplitude, e uma delas \u00e9 \u201cAshes of American Flags\u201d, em que ele faz um brilhante raio-x da sociedade americana e de suas mazelas no in\u00edcio do novo mil\u00eanio. O lan\u00e7amento do disco seria no dia 11 de setembro de 2001, mas o presidente da gravadora Reprise n\u00e3o gostou do resultado, o que criou um impasse que culminou com a quebra de contrato. Devido a isso, o disco s\u00f3 foi lan\u00e7ado oficialmente ap\u00f3s o grupo ter assinado com a Nonesuch, em abril de 2002, e muita gente pensou que a obra fazia refer\u00eancia direta aos atentados terroristas de 11\/9 por v\u00e1rias cita\u00e7\u00f5es presentes em m\u00fasicas como \u201cWar on War\u201d, \u201cJesus, Etc.\u201d (\u201cTall Buildings Shaking\u201d) e da pr\u00f3pria \u201cAshes of American Flags\u201d, al\u00e9m da capa com uma foto de duas torres g\u00eameas de Chicago, o Marina City. S\u00f3 que as m\u00fasicas e a arte da capa j\u00e1 estavam prontas antes do atentado. O disco acabou ganhando mais visibilidade por essa coincid\u00eancia surpreendente.<\/p>\n<p><strong>24. Box full of letters<\/strong> (<em>A.M.<\/em>, Wilco, 1995)<br \/>\nA paix\u00e3o de Jeff Tweedy pelo Power-Pop do <strong>Big Star<\/strong> &#8211; lend\u00e1ria banda de Memphis dos anos 1970 que nunca fez sucesso &#8211; fica evidente no primeiro single do primeiro \u00e1lbum do Wilco, lan\u00e7ado meses depois do fim do <strong>Uncle Tupelo<\/strong>. O ar sessentista da melodia e os <em>licks<\/em> de guitarra emulam os \u00eddolos, e a \u00fanica diferen\u00e7a mais marcante s\u00e3o os vocais mais puxados pro Country, heran\u00e7a da banda anterior que n\u00e3o iria durar muito. Radiof\u00f4nica, pegajosa e deliciosa, a m\u00fasica \u00e9 uma das favoritas dos f\u00e3s e \u00e9 presen\u00e7a constante no <em>setlist<\/em> atual do Wilco. O disco de estreia teve cr\u00edticas mornas e vendas nanicas, mas eles iriam se reinventar no ano seguinte com a incorpora\u00e7\u00e3o do guitarrista e coringa Jay Bennett. Ah, e a letra \u00e9 aparentemente dirigida ao ex-parceiro de Uncle Tupelo, Jay Farrar.<\/p>\n<p><strong>23. Outtaside (Outta Mind)<\/strong> (<em>Being There<\/em>, Wilco, 1996)<br \/>\nSe voc\u00ea quer conhecer o lado mais divertido e relaxado do Wilco, essa \u00e9 a can\u00e7\u00e3o perfeita. \u201cOk, alright!\u201d, brada Jeff Tweedy, e \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o embarcar na levada contagiante do primeiro single de <strong>Being There<\/strong>, presen\u00e7a obrigat\u00f3ria no <em>setlist<\/em> da banda at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><strong>22. Wreckroom<\/strong> (<em>Born Again in the USA<\/em>, Loose Fur, 2006)<br \/>\nO segundo (e \u00faltimo) disco do Loose Fur \u00e9 bem mais diversificado do que o primeiro, misturando exerc\u00edcios pop diretos com experimentos idiossincr\u00e1ticos. \u201cWreckroom\u201d \u00e9 uma \u00f3tima representante desse segundo grupo, e poderia muito bem fazer parte de <em>A Ghost is Born<\/em>. A faixa tem quase nove minutos, mas acontecem tantas mudan\u00e7as que passa a impress\u00e3o de que \u00e9 bem mais longa. Ela come\u00e7a como uma balada \u201cquase\u201d convencional, metamorfoseando-se subitamente em Dream-Pop (levado por guitarras et\u00e9reas e uma linha de baixo antol\u00f3gica), e mais adiante na trilha sonora do fim do mundo, com espasmos de guitarra violentos e um solo carregado de distor\u00e7\u00e3o que lembra o <strong>Led Zeppelin<\/strong> da fase <em>Physical Graffiti<\/em>. Nos \u00faltimos quatro minutos, outra mudan\u00e7a dr\u00e1stica ocorre, e a m\u00fasica se converte numa pe\u00e7a de Ambient Music levada por viol\u00f5es delicados e sintetizadores g\u00e9lidos. Se voc\u00ea n\u00e3o entendeu nada, sugiro que v\u00e1 ouvir e se surpreender, pois \u00e9 mesmo dif\u00edcil de explicar.<\/p>\n<p><strong>21. Hell is Chrome<\/strong> (<em>A Ghost is Born<\/em>, Wilco, 2004)<br \/>\nA segunda faixa de <a href=\"https:\/\/www.urgesite.com.br\/resenha-wilco-a-ghost-is-born\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>A Ghost is Born<\/em><\/a> \u00e9 uma das mais reveladoras do estado mental deteriorado de Jeff Tweedy no in\u00edcio dos anos 2000, decorrente do v\u00edcio em medicamentos. A letra fala do diabo escondido em formato sedutor, como no caso das drogas l\u00edcitas que ele usava em excesso, e que tinham f\u00e1cil acesso, ampla dissemina\u00e7\u00e3o no meio art\u00edstico e geravam um efeito calmante e redutor de ansiedade. Ao tentar parar por conta pr\u00f3pria, Jeff enfrentou uma crise de abstin\u00eancia t\u00e3o forte que teve que ser internado em uma cl\u00ednica de reabilita\u00e7\u00e3o, provocando um atraso de algumas semanas no lan\u00e7amento do \u00e1lbum. A despeito da tem\u00e1tica pesada, \u201cHell is Chrome\u201d \u00e9 t\u00e3o sedutora quanto as drogas que ela retrata, com ritmo em meio tempo e final transcendente, em que os versos \u201cCome With Me\u201d s\u00e3o repetidos como um mantra.<\/p>\n<figure id=\"attachment_24327\" aria-describedby=\"caption-attachment-24327\" style=\"width: 835px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-24327\" src=\"https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Billy_Bragg_Wilco.jpg\" alt=\"Wilco com Billy Bragg\" width=\"845\" height=\"630\" srcset=\"https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Billy_Bragg_Wilco.jpg 845w, https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Billy_Bragg_Wilco-300x224.jpg 300w, https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Billy_Bragg_Wilco-768x573.jpg 768w, https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Billy_Bragg_Wilco-335x250.jpg 335w\" sizes=\"auto, (max-width: 845px) 100vw, 845px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-24327\" class=\"wp-caption-text\"><em>Wilco com Billy Bragg<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong><span class='vw-dropcap vw-dropcap-box'>20<\/span> Heavy Metal Drummer<\/strong> (<em>Yankee Hotel Foxtrot<\/em>, Wilco, 2002)<br \/>\nO document\u00e1rio <em>I&#8217;m Trying to Break Your Heart: A Film about Wilco<\/em>, de <strong>Sam Jones<\/strong>, \u00e9 um retrato revelador da conturbada gesta\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum que se tornou um marco para o rock independente. Entre os momentos mais memor\u00e1veis do doc est\u00e1 uma discuss\u00e3o acalorada entre Jeff Tweedy e Jay Bennett sobre a transi\u00e7\u00e3o entre as faixas \u201cAshes of American Flags\u201d e \u201cHeavy Metal Drummer\u201d. Jay seria demitido antes do final das grava\u00e7\u00f5es, mas, seja l\u00e1 quem estivesse com a raz\u00e3o, o fato \u00e9 que a transi\u00e7\u00e3o \u00e9 fenomenal. A percuss\u00e3o de Glenn Kotche \u00e9 a igni\u00e7\u00e3o para uma can\u00e7\u00e3o pop perfeita e que se tornou uma das queridinhas dos f\u00e3s desde ent\u00e3o. A inoc\u00eancia da letra que relembra a rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e3s e \u00eddolos do Rock durante a juventude pode deixar a impress\u00e3o de que Jeff Tweedy era um metaleiro, mas na verdade a m\u00fasica foi feita para que ele se redimisse do preconceito que tinha com as bandas de metal na juventude. Ele n\u00e3o fazia <em>covers<\/em> do <strong>Kiss<\/strong> como diz a letra, pois amava era o Punk do <strong>The Clash<\/strong> e o College Rock dos <strong>Replacements<\/strong> e do <strong>Minutemen<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>19. Say You Miss Me<\/strong> (<em>Being There<\/em>, Wilco, 1996)<br \/>\nVou come\u00e7ar citando meu amigo <strong>Alessandro Andreola<\/strong>, que escreveu o seguinte sobre essa can\u00e7\u00e3o em seu livro <em>M\u00fasica do Dia<\/em>: \u201cSe Say You Miss Me n\u00e3o te comover \u00e9 melhor parar por aqui, porque eu n\u00e3o sei nem mais o que dizer\u201d. E finalizo tamb\u00e9m com ele: \u201cuma m\u00fasica capaz de valer por uma discografia inteira\u201d.<\/p>\n<p><strong>18. The Long Cut<\/strong> (<em>Anodyne<\/em>, Uncle Tupelo, 1993)<br \/>\nNo in\u00edcio de 1994, o Uncle Tupelo estava batendo nas portas do sucesso. Eles lan\u00e7aram o seu quarto disco, <em>Anodyne<\/em>, e foram convidados para aparecer no programa de TV <em>Late Night with Conan O\u00b4Brien<\/em>. Ao longo dos anos, a disputa por espa\u00e7o no grupo havia se acentuado, pois Jeff Tweedy crescia como compositor e desafiava a supremacia de Jay Farrar. A m\u00fasica escolhida pela gravadora para ser tocada foi \u201cThe Long Cut\u201d, de Jeff, uma gema pop que condensava todas as habilidades da banda: mudan\u00e7as espertas de andamento, refr\u00e3o viciante, guitarras a todo vapor, sensibilidade pop e v\u00ednculos com a m\u00fasica raiz americana. E tudo isso ainda era combinado de forma inventiva e original. S\u00f3 que, logo depois da apresenta\u00e7\u00e3o, Jay Farrar simplesmente decidiu acabar com a banda, deixando Jeff sem ch\u00e3o. Ele alegou que n\u00e3o sentia mais prazer em trabalhar com o parceiro, e s\u00f3 20 anos depois Jeff ficou sabendo por uma entrevista de Jay que ele (Jeff) n\u00e3o havia sido perdoado pelo amigo por alegadamente ter dado em cima da namorada dele logo nos prim\u00f3rdios da banda, numa ocasi\u00e3o em que estava b\u00eabado. A animosidade pode ter vindo da\u00ed, mas \u00e9 quase certo que \u201cThe Long Cut\u201d foi o golpe final que acentuou a rivalidade e p\u00f4s fim \u00e0 banda.<\/p>\n<p><strong>17. Laminated Cat<\/strong> (<em>Loose Fur<\/em>, Loose Fur, 2002)<br \/>\n<em>Yankee Hotel Foxtrot<\/em> n\u00e3o seria o mesmo sem o encontro de Jeff Tweedy com o m\u00fasico e produtor vanguardista <strong>Jim O&#8217;Rourke<\/strong>, no in\u00edcio do ano 2000. Tweedy convidou Jim para tocarem juntos num festival, pois era f\u00e3 de um dos discos dele (<em>Bad Timing<\/em>, de 1997). A alquimia entre os dois foi t\u00e3o grande que eles compuseram v\u00e1rias can\u00e7\u00f5es e decidiram grav\u00e1-las em quatro dias de est\u00fadio, junto com Glenn Kotche, baterista de confian\u00e7a de Jim. O \u00e1lbum do projeto paralelo <strong>Loose Fur<\/strong> foi lan\u00e7ado somente em 2002, mas o mais importante disso tudo \u00e9 que Jeff ficou entusiasmado com os companheiros da nova banda e decidiu substituir Ken Coomer por Glenn Kotche ainda no in\u00edcio das grava\u00e7\u00f5es de YHF. Al\u00e9m disso, Jim O&#8217;Rourke foi chamado para mixar o disco e teve papel decisivo na sonoridade inovadora e revolucion\u00e1ria t\u00e3o aclamada pela cr\u00edtica. Tendo dito isso, cabe destacar que o \u00e1lbum de estreia do <strong>Loose Fur<\/strong> tamb\u00e9m \u00e9 muito bom e que a primeira m\u00fasica, \u201cLaminated Cat\u201d, \u00e9 uma reconstru\u00e7\u00e3o de \u201cNot for the season\u201d, que vinha sendo trabalhada pelo Wilco nas sess\u00f5es de YHF, e que nas m\u00e3os do trio rec\u00e9m-formado achou seu formato ideal, com batida repetitiva, enxurradas de efeitos e clima atmosf\u00e9rico. E ficou t\u00e3o bom que vira e mexe o pr\u00f3prio Wilco toca essa \u201cfilha bastarda\u201d em seus shows.<\/p>\n<p><strong>16. Poor Places<\/strong> (<em>Yankee Hotel Foxtrot<\/em>, Wilco, 2002)<br \/>\nNa \u00e9poca em que estava compondo Yankee Hotel Foxtrot, Jeff Tweedy estava viciado num disco que reproduzia transmiss\u00f5es de r\u00e1dio feitas por espi\u00f5es. Ele acabou usando uma dessas transmiss\u00f5es para batizar o disco, e tamb\u00e9m para concluir a faixa \u201cPoor places\u201d, uma emblem\u00e1tica reflex\u00e3o sobre nosso desejo de aliena\u00e7\u00e3o num mundo com informa\u00e7\u00e3o cada vez mais acess\u00edvel: \u201cAnd it makes no difference to me\/ When it\u00b4s hot in the poor places tonight\/ I\u00b4m not going outside\u201d.<\/p>\n<p><strong>15. The Lonely 1<\/strong> (<em>Being There<\/em>, Wilco, 1996)<br \/>\nDe todas as m\u00fasicas compostas por Jeff Tweedy sobre a fama, essa \u00e9 a mais direta e sentimental. Um f\u00e3 discorre sobre sua rela\u00e7\u00e3o intensa com seu \u00eddolo: ele vai ao show, pede aut\u00f3grafo, volta pra casa e bota o disco para tocar de madrugada, defende o \u00eddolo quando ele \u00e9 criticado, e toca suas m\u00fasicas no viol\u00e3o. E o mais importante: ele se identifica com as m\u00fasicas que retratam a mesma solid\u00e3o que ele vivencia no seu dia a dia.<\/p>\n<p><strong>14. Handshake Drugs<\/strong> (<em>A Ghost is Born<\/em>, Wilco, 2004)<br \/>\nEm sua autobiografia, Jeff Tweedy relata um acontecimento que foi decisivo para seu v\u00edcio em medicamentos sair do controle: um encontro com o balconista de uma farm\u00e1cia, f\u00e3 do Wilco, que pergunta se ele n\u00e3o quer mais rem\u00e9dios do que a quantidade prescrita pelo m\u00e9dico. N\u00e3o consigo deixar de pensar nisso quando ou\u00e7o \u201cHandshake Drugs\u201d e seu relato de um dia na vida de um viciado. O ritmo tranquilo e repetitivo da can\u00e7\u00e3o, com destaque para a linha de baixo estupenda de John Stirratt, simula o efeito entorpecente das drogas (\u201cI looked like someone I used to know\u201d), mas ao final o v\u00edcio cobra seu pre\u00e7o e a m\u00fasica desanda para um oceano inc\u00f4modo de distor\u00e7\u00e3o que toma tudo de assalto.<\/p>\n<p><strong>13. Sunken Treasure<\/strong> (<em>Being There<\/em>, Wilco, 1996)<br \/>\nPerfeitamente equilibrada entre o Rock Cl\u00e1ssico e as inova\u00e7\u00f5es sonoras do Rock Alternativo , \u201cSunken treasure\u201d \u00e9 uma faixa emblem\u00e1tica que prediz a fase experimental do Wilco. Liricamente, ela \u00e9 t\u00e3o rica que fica dif\u00edcil destacar os melhores versos. Mas fico com o refr\u00e3o (\u201cI\u00b4m so out of tune with you\u201d) e com os versos finais que sintetizam o poder da m\u00fasica de forma colossal: \u201cMusic is my saviour\/ And I was maimed by rock and roll\/ I was tamed by rock and roll\/ Got my name from rock and roll\u201d.<\/p>\n<p><strong>12. Art of Almost<\/strong> (<em>The Whole Love<\/em>, Wilco, 2011)<br \/>\nA m\u00fasica de abertura de The Whole Love \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o, tanto no contexto do \u00e1lbum quanto no da carreira da banda. Ali\u00e1s, o Wilco merece o t\u00edtulo de \u201cbanda que melhor escolhe as faixas de abertura de seus discos\u201d. Eles nunca fizeram algo t\u00e3o ousado quanto esse \u00e9pico monstruoso, com letra obl\u00edqua e um n\u00edvel de tens\u00e3o arrebatador oriundo de seus efeitos eletr\u00f4nicos, batida estilizada e dan\u00e7ante e arranjos de cordas atmosf\u00e9ricos, que culminam num solo de guitarra barulhento, minimalista e paranoico que acelera de forma surpreendente no \u00faltimo minuto. Uma aventura sonora m\u00e1gica e que tem ainda mais impacto nas apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo. Se o \u00e1lbum todo seguisse essa linha seria incr\u00edvel, mas ele se perde em can\u00e7\u00f5es agrad\u00e1veis, mas previs\u00edveis. O pr\u00f3prio Jeff Tweedy n\u00e3o curtiu muito o resultado final, tanto que n\u00e3o faz nenhuma men\u00e7\u00e3o ao disco em sua autobiografia.<\/p>\n<p><strong>11. Hummingbird<\/strong> (<em>A Ghost is Born<\/em>, Wilco, 2004)<br \/>\nEssa \u00e9 a m\u00fasica favorita de Robert Tweedy, o pai de Jeff Tweedy, que perguntava recorrentemente ao filho porque ele n\u00e3o fazia mais m\u00fasicas desse tipo (ou seja, m\u00fasica pop sem complica\u00e7\u00f5es). Robert provavelmente n\u00e3o conheceu a vers\u00e3o embrion\u00e1ria da can\u00e7\u00e3o, que vem das sess\u00f5es de <em>Yankee Hotel Foxtrot<\/em> e \u00e9 prova cabal de como um arranjo pode dar um car\u00e1ter totalmente diferente a uma m\u00fasica. A vers\u00e3o original se chamava \u201cRemember to Remember\u201d e \u00e9 pontuada por elementos eletr\u00f4nicos esquisitos e um <em>riff<\/em> de guitarra el\u00edptico. A melodia \u00e9 quase a mesma, mas o resultado final \u00e9 totalmente diferente da balada arrebatadora, filos\u00f3fica e acess\u00edvel que \u00e9 uma anomalia no altamente experimental <em>A Ghost is Born<\/em>. Sa\u00edram os efeitos esquisitos e entraram teclados e violinos sublimes. S\u00e3o tr\u00eas minutos de Pop\/Rock perfeito que n\u00e3o fariam feio em <em>Let it Be<\/em> ou <em>Abbey Road<\/em>, o que n\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Ah, \u201cRemember to Remember\u201d foi disponibilizada na edi\u00e7\u00e3o de anivers\u00e1rio de 20 anos de YHF e tamb\u00e9m \u00e9 muito boa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-24315\" src=\"https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/jeff-tweedy-circa-2002.jpg\" alt=\"jeff-tweedy-circa-2002\" width=\"1280\" height=\"720\" srcset=\"https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/jeff-tweedy-circa-2002.jpg 1280w, https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/jeff-tweedy-circa-2002-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/jeff-tweedy-circa-2002-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/jeff-tweedy-circa-2002-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/jeff-tweedy-circa-2002-150x83.jpg 150w, https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/jeff-tweedy-circa-2002-335x188.jpg 335w, https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/jeff-tweedy-circa-2002-700x394.jpg 700w, https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/jeff-tweedy-circa-2002-1080x608.jpg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><\/p>\n<p><strong> <span class='vw-dropcap vw-dropcap-box'>10<\/span>She&#8217;s a Jar<\/strong> (<em>Summerteeth<\/em>, Wilco, 1999)<br \/>\nEssa balada que retrata um relacionamento conturbado por meio de um brilhante exerc\u00edcio de poesia de inspira\u00e7\u00e3o surrealista \u00e9 um dos pilares do terceiro disco do Wilco, e seu magnetismo deriva tamb\u00e9m da harmonia simbi\u00f3tica entre o viol\u00e3o de Tweedy e o mellotron tocado por Jay Bennett. O verso final \u00e9 assustador e surpreendente: \u201cShe begs me not to hit her\u201d. Tanto Jeff quanto sua esposa j\u00e1 reconheceram em entrevistas que o per\u00edodo em que <em>Summerteeth<\/em> foi composto coincide com uma crise conjugal decorrente, entre outros fatores, dos longos per\u00edodos de aus\u00eancia do cantor por causa das turn\u00eas. Ambos tamb\u00e9m negaram veementemente que tenha ocorrido qualquer tipo de viol\u00eancia entre eles.<\/p>\n<p><strong>9. At Least That&#8217;s What You Said<\/strong> (<em>A Ghost is Born<\/em>, Wilco, 2004)<br \/>\n\u201cI thought it was cute\/ For you to kiss\/ My purple black eye\/ Even though I caught it from you\u201d. Assim como na can\u00e7\u00e3o anterior dessa lista, a viol\u00eancia dom\u00e9stica aparece novamente como uma presen\u00e7a inc\u00f4moda no universo l\u00edrico de Jeff Tweedy. Musicalmente, a pe\u00e7a de abertura de <em>A Ghost is Born<\/em> \u00e9 dividida em duas partes: na primeira, Jeff canta com uma voz quase inaud\u00edvel, acompanhado de instrumenta\u00e7\u00e3o esparsa. Na segunda se\u00e7\u00e3o, a m\u00fasica explode em um solo violento de guitarra que dura mais de tr\u00eas minutos. Encorajado pelo produtor Jim O&#8217;Rourke a assumir suas habilidades na guitarra solo depois da demiss\u00e3o de Jay Bennett, Tweedy encarna um crossover entre <strong>Neil Young<\/strong>, <strong>Tom Verlaine<\/strong> e <strong>Thurston Moore<\/strong>, e n\u00e3o deixa nada a dever a esses deuses da guitarra.<\/p>\n<p><strong>8. Theologians<\/strong> (<em>A Ghost is Born<\/em>, Wilco, 2004)<br \/>\n\u201cTheologians, they don\u00b4t know nothing\/ About my soul\u201d. Dif\u00edcil pensar em versos de tanto impacto para iniciar uma can\u00e7\u00e3o pop. Cr\u00edtico da religi\u00e3o organizada, Tweedy cria um hino de liberta\u00e7\u00e3o de todos os dogmas e imposi\u00e7\u00f5es, sem deixar de reconhecer a exist\u00eancia do divino: \u201cGod is with us every day\u201d. Por si s\u00f3, a letra j\u00e1 seria um triunfo art\u00edstico, mas ela \u00e9 potencializada por uma das can\u00e7\u00f5es mais lindas e arrebatadoras do Wilco e que culmina em um solo de guitarra de cair o queixo. Obra-prima!<\/p>\n<p><strong>7. Via Chicago<\/strong> (Summerteeth, Wilco, 1999)<br \/>\nO eu l\u00edrico de \u201cVia Chicago\u201d come\u00e7a sua narrativa descrevendo em detalhes um sonho no qual ele mata algu\u00e9m pr\u00f3ximo, e dizendo que se sentiu bem com isso. Ele tem vis\u00f5es com um homem sendo perseguido na televis\u00e3o e sente o vento o levando de volta pra casa, passando por Chicago, aliviado por n\u00e3o ter ido longe demais. Por tr\u00e1s desse subtexto brutal de viol\u00eancia (dom\u00e9stica?), podemos tamb\u00e9m notar na letra complexa e cr\u00edptica uma homenagem \u201ctorta\u201d \u00e0 cidade que Jeff Tweedy tomou como casa depois que se casou, e, tamb\u00e9m, \u00e0 pequena Belleville, ao sul de Illinois, em que ele nasceu e cresceu &#8211; e pela qual n\u00e3o nutre grande nostalgia. Essa vontade de voltar para casa provavelmente tamb\u00e9m se relacionava com o drama da vida nas turn\u00eas e longe da fam\u00edlia. A levada Folk do viol\u00e3o de Tweedy (ali\u00e1s, grande parte das can\u00e7\u00f5es dele s\u00e3o de inspira\u00e7\u00e3o folk e se reduzem bem ao formato voz e viol\u00e3o) \u00e9 tomada de assalto ao longo dos mais de cinco minutos por ondas de barulho e disson\u00e2ncia que real\u00e7am o contexto pesado. E a cereja do bolo desse cl\u00e1ssico do cancioneiro do Country Alternativo \u00e9 o momento em que a voz do cantor falha discretamente quase no final, imprimindo uma autenticidade marcante e inebriante.<\/p>\n<p><strong>6. Spiders (Kidsmoke)<\/strong> (A Ghost is Born, Wilco, 2004)<br \/>\nEssa faixa monstruosa de mais de dez minutos se tornou um ponto alto das apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo do Wilco desde que foi lan\u00e7ada. Baseada numa din\u00e2mica simples e no ritmo repetitivo do Krautrock, a m\u00fasica oscila entre os trechos cantados por Tweedy, partes em que ele sola de improviso, e o refr\u00e3o ic\u00f4nico e sem letra que serve como um al\u00edvio para a tens\u00e3o das outras duas passagens. Foi gravada ao vivo em est\u00fadio em apenas duas tentativas, e a primeira delas foi escolhida como vers\u00e3o final. O que a princ\u00edpio parece uma m\u00fasica \u201cdif\u00edcil\u201d acaba se tornando viciante, e ao final fica a sensa\u00e7\u00e3o de que ela poderia ter o dobro da dura\u00e7\u00e3o e ainda assim manter o ouvinte hipnotizado.<\/p>\n<p><strong>5. Impossible Germany<\/strong> (Sky Blue Sky, Wilco, 2007)<br \/>\nA incorpora\u00e7\u00e3o do guitarrista Nels Cline e do instrumentista Pat Sansone ao Wilco em 2005 abriu novas possibilidades criativas para a banda. Muita gente torceu o nariz e sentiu falta de Jay Bennett, grande parceiro musical de Tweedy at\u00e9 aquele ponto (ele j\u00e1 n\u00e3o tinha participado de <em>A Ghost is Born<\/em>). No entanto, o novo time com seis membros (que dura at\u00e9 hoje) permitia explorar arranjos mais detalhistas e, al\u00e9m disso, fazer uso do talento de Cline para transitar entre g\u00eaneros como o Country (tocando lap steel), o Jazz, o Noise experimental e as tradi\u00e7\u00f5es do Rock Alternativo. E \u00e9 nessa \u00faltima faceta que se apoia \u201cImpossible Germany\u201d. O solo monumental de Cline, que dura mais de quatro minutos, n\u00e3o \u00e9 fant\u00e1stico somente pelas partes tocadas por ele, mas pela intera\u00e7\u00e3o perfeita com as guitarras de Tweedy e Sansone, num cl\u00edmax em que todas se unem para o fraseado final que lembra as intera\u00e7\u00f5es de <strong>Tom Verlaine<\/strong> e<strong> Richard Lloyd<\/strong> no <strong>Television<\/strong> e se tornaram o \u00e1pice dos shows do Wilco desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>4. A Shot in the Arm<\/strong> (Summerteeth, Wilco, 1999)<br \/>\n\u201cMaybe all I need is a shot in the arm\/ Something in my veins\/ Bloodier than blood.\u201d Se eu tivesse que escolher somente um verso composto por Jeff Tweedy, ficaria com esse, por sua expressividade e pela forma como ele irrompe no meio da m\u00fasica e \u00e9 repetido exaustivamente e com intensidade cada vez maior. E para quem conhece a hist\u00f3ria de Jeff e seu v\u00edcio em medicamentos, a conex\u00e3o se torna ainda mais forte. Mas \u201cA Shot in the Arm\u201d n\u00e3o \u00e9 uma obra-prima somente por esses versos ou pelo conte\u00fado l\u00edrico. Musicalmente, ela representa o avan\u00e7o de <em>Summerteeth<\/em> frente \u00e0 <em>Being There<\/em> rumo \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o e ao vanguardismo, trocando guitarras por sintetizadores e teclados circulares e fazendo uso intensivo do est\u00fadio para constru\u00e7\u00e3o e desconstru\u00e7\u00e3o dos arranjos. Jeff e Jay Bennett praticamente exclu\u00edram os outros membros do Wilco do processo criativo, assumindo at\u00e9 instrumentos percussivos em algumas m\u00fasicas, mas as poss\u00edveis tens\u00f5es dessa decis\u00e3o foram anuladas pelo resultado final: um disco coeso, inovador e que tem com um de seus pontos altos essa reflex\u00e3o pungente sobre o v\u00edcio que foi lan\u00e7ada como segundo single do \u00e1lbum e \u00e9 uma das favoritas dos f\u00e3s.<\/p>\n<p><strong>3. Jesus, Etc.<\/strong> (Yankee Hotel Foxtrot, Wilco, 2002)<br \/>\n\u00c9 incr\u00edvel que o Wilco nunca tenha tido um hit. Apesar de uma base de f\u00e3s consolidada, o grupo nunca conseguiu ir al\u00e9m das fronteiras do mundo indie. Por isso, \u00e9 dif\u00edcil escolher uma m\u00fasica de refer\u00eancia da banda, aquela que \u00e9 conhecida at\u00e9 por quem n\u00e3o \u00e9 f\u00e3. Na aus\u00eancia desse hit de refer\u00eancia, \u201cJesus, Etc.\u201d ocupou esse lugar de m\u00fasica favorita entre os f\u00e3s, crescendo de forma lenta em popularidade e sendo, hoje em dia, a can\u00e7\u00e3o mais ouvida do Wilco nos servi\u00e7os de streaming por larga margem. Tal fato n\u00e3o surpreende se pensarmos nos diversos elementos que se combinam de forma alqu\u00edmica para criar um cl\u00e1ssico incontest\u00e1vel: letra \u201cdif\u00edcil\u201d, mas repleta de versos fortes e que se sustentam at\u00e9 fora do contexto da can\u00e7\u00e3o, como \u201cLast cigarettes are all you can get\/ Turning your orbit around\u201d; melodia doce e viciante; e arranjo meticuloso, guiado por violinos. A men\u00e7\u00e3o a Jesus j\u00e1 foi explicada por Jeff como uma refer\u00eancia \u00e0 nossa mania de evoc\u00e1-lo em momentos de surpresa ou irrita\u00e7\u00e3o, em forma de interjei\u00e7\u00e3o. E \u00e9 exatamente isso que o narrador tenta fazer no in\u00edcio, dirigindo-se a uma pessoa amada. S\u00f3 que, depois disso, a letra se desvia para outros elementos fortes e instigantes, e o efeito \u00e9 sublime justamente por nos lembrar da nossa finitude, pequenez e impot\u00eancia frente ao universo. Ainda assim, podemos confiar no amor como ref\u00fagio (\u201cOur love is all we have\u201d), conclui Jeff, e eu acrescento: podemos contar tamb\u00e9m com m\u00fasicas como essa para elevar nosso estado de esp\u00edrito, \u201canytime we want\u201d.<\/p>\n<p><strong>2. Misunderstood<\/strong> (Being There, Wilco, 1996)<br \/>\n<em>Being There<\/em> foi o \u00e1lbum que consolidou o Wilco como uma banda essencial no cen\u00e1rio do Rock Alternativo americano, mesmo n\u00e3o tendo sido um sucesso de vendas. O disco duplo com 19 m\u00fasicas revisita o classicismo de gigantes como a <strong>The Band<\/strong>, dando uma roupagem renovada para o que os cr\u00edticos chamam de Americana, uma mistura do Rock com m\u00fasica de raiz estadunidense. No entanto, em alguns momentos <em>Being There<\/em> vai al\u00e9m desse exerc\u00edcio nost\u00e1lgico, apontando para novas dire\u00e7\u00f5es criativas que seriam exploradas nos discos seguintes da banda. Logo na faixa de abertura, \u201cMisunderstood\u201d, isso fica evidente. O ritmo do viol\u00e3o de Tweedy se ancora em somente dois acordes, s\u00f3 que as passagens de Folk Music s\u00e3o interrompidas por ataques de cacofonia e barulho que real\u00e7am a carga emocional da can\u00e7\u00e3o. Tudo culmina nos cat\u00e1rticos versos \u201cI wanna thank you all for nothing\u201d, e a \u00faltima palavra \u00e9 repetida diversas vezes com raiva evidente. Jeff Tweedy se referia diretamente aos seus conterr\u00e2neos de Belleville, especialmente os que o exclu\u00edram durante a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. Nessa vingan\u00e7a em forma de can\u00e7\u00e3o, a amargura se transforma em tranquilidade ap\u00f3s o \u00e1pice, e a m\u00fasica termina em ritmo calmo e reconfortante. Quem leu a autobiografia de Tweedy compreende bem os motivos por tr\u00e1s desse rancor, pois ele trata disso com muita franqueza na obra.<\/p>\n<div class=\"vw-infobox\"><div class=\"vw-infobox-inner\"><div class=\"vw-infobox-content\"><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-24324\" src=\"https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/WilcoYankeeHotel.jpg\" alt=\"Wilco Yankee Hotel\" width=\"1200\" height=\"630\" srcset=\"https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/WilcoYankeeHotel.jpg 1200w, https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/WilcoYankeeHotel-300x158.jpg 300w, https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/WilcoYankeeHotel-1024x538.jpg 1024w, https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/WilcoYankeeHotel-768x403.jpg 768w, https:\/\/www.urgesite.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/WilcoYankeeHotel-335x176.jpg 335w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p><strong><span class='vw-dropcap vw-dropcap-circle'>1<\/span>I&#8217;m Trying to Break Your Heart<\/strong> (<em>Yankee Hotel Foxtrot<\/em>, Wilco, 2002)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">A m\u00fasica de abertura de <em>Yankee Hotel Foxtrot<\/em> tem uma qualidade rara: \u00e9 sedutora e conquista o ouvinte quase que imediatamente pela melodia e arranjo soberbos; e, ao mesmo tempo, cont\u00e9m elementos de experimenta\u00e7\u00e3o e esquisitices em abund\u00e2ncia para os audi\u00f3filos de plant\u00e3o, al\u00e9m de uma letra misteriosa e com versos de grande efeito emocional. A abordagem l\u00edrica impressionista que Jeff Tweedy adota a partir de algumas can\u00e7\u00f5es de <em>Being There<\/em> e <em>Summerteeth<\/em>, e que atinge o \u00e1pice em YHF, consistia na combina\u00e7\u00e3o de palavras at\u00e9 obter algo de impacto, e, talvez, algumas possibilidades de significado. Substantivos de um lado, verbos de outro, m\u00faltiplas combina\u00e7\u00f5es. Desse m\u00e9todo, surgiram preciosidades como \u201cI&#8217;m an American aquarium drinker\/ I assassin down the avenue\u201d. \u00c9 t\u00e3o impactante que n\u00e3o precisa ter sentido. Musicalmente, a m\u00fasica tem como principal destaque a percuss\u00e3o monumental de Glenn Kotche, que faz uso de latas, azulejos e algo parecido com um xilofone. O salto criativo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 <em>Summerteeth<\/em> \u00e9 gigante e logo na faixa de abertura fica evidente. Alguns utilizaram a alcunha de \u201cresposta americana ao <strong>Radiohead<\/strong>\u201d para expressar tal feito art\u00edstico, mas, embora elogiosa, ela n\u00e3o faz jus \u00e0 singularidade e originalidade da abordagem de Tweedy, Jay Bennett e seus companheiros.<\/div><\/div><\/div>\n<p><strong>ABAIXO, A PLAYLIST COM AS 50 CAN\u00c7\u00d5ES COMENTADAS NO TEXTO:<\/strong><\/p>\n<p><iframe title=\"Spotify Embed: Jeff Tweedy: um g\u00eanio em 50 can\u00e7\u00f5es\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"352\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/playlist\/7dDaahGtVyCE1EDvUAJ1mP?si=zRB1TsVhRsSKmt79o4v_UQ&#038;utm_source=oembed\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Iniciando a coluna \u201cG\u00eanios em 50 can\u00e7\u00f5es\u201d com o p\u00e9 direito, contamos a trajet\u00f3ria do genial Jeff Tweedy, um dos grandes nomes do Rock Alternativo americano, por meio de suas &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":24313,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6820,5131,7367],"tags":[7366,7370,6385,7369,7371,6072,7368,1774],"class_list":["post-24308","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunas-colunas","category-destaque","category-genios-em-50-cancoes","tag-50-cancoes","tag-golden-smog","tag-jeff-tweedy","tag-loose-fur","tag-tweedy","tag-um-genio-em-50-cancoes","tag-uncle-tupelo","tag-wilco"],"aioseo_notices":[],"aioseo_head":"\n\t\t<!-- All in One SEO 5.0.4 - aioseo.com -->\n\t<meta name=\"description\" content=\"niciando a coluna \u201cG\u00eanios em 50 can\u00e7\u00f5es\u201d com o p\u00e9 direito, contamos a trajet\u00f3ria do genial Jeff Tweedy, um dos grandes nomes do Rock Alternativo americano, por meio de suas can\u00e7\u00f5es. 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