‘Nowhere’, do Ride, é álbum de estreia grandioso e clássico


Ride em 1990

Quem nasceu nos anos 70 há que se lembrar com alguma clareza dos acontecimentos históricos marcantes das décadas de 80 e 90, dentre eles a Queda do Muro de Berlim, a campanha pelas Eleições Diretas aqui no Brasil (ou o fim da Ditadura), A Perestroika. O início da década de 90 viu ainda a soltura de Nelson Mandela, a derrota de Thatcher e, no nosso contexto, o infame sequestro da poupança pelo governo Collor.

Imperavam as fitas VHS, as locadoras, as calças bag, e a Internet era um sonho distante; informações, primordialmente, só através da Revista Bizz, que só nos abria o apetite com tantos nomes de bandas novos e definições que atiçavam a curiosidade. Ride era um deles.

À parte o turbilhão de acontecimentos históricos/culturais e nosso precário acesso ao que acontecia lá fora, o início da década que precedeu o fim do milênio viu alguns álbuns basilares serem lançados naquele ano: Violator (Depeche Mode), Bossanova (Pixies), Pills’n’Thrills and Bellyaches (Happy Mondays), Fear of Black Planet (Public Enemy), Goo (Sonic Youth) e Nowhere, marcante álbum de estreia do quarteto de Oxford, Ride. Apesar de “estranho no ninho” dentro do contexto musical reinante, o álbum que se alinhava, por exemplo, com Isn’t Anything, estreia dos irlandeses do My Bloody Valentine.

Na contramão da vigente cena Indie-Dance ou da Dance-Music que imperava em solo britânico com força e se espalhava pelo mundo, onde as boates eram como templos e as raves como “missas”, só que regadas a ecstasy e música para chacoalhar o esqueleto, o quarteto capitaneado pela dupla de vocalistas e guitarristas Andy Bell e Mark Gardener surgiu com um álbum que recolocava as guitarras como elemento principal das canções, numa profusão de riffs barulhentos, mas também com belas e empolgantes passagens melódicas e harmonias vocais, escudados pelas linhas de baixo densas de Steve Queralt e a precisão rítmica de Laurence Colbert. Sem esquecer dos muitos Ah-Ah-Ahs, elemento chave de várias canções do grupo.

Se no ano anterior seus contemporâneos The Stones Roses sacudiram as paradas, as pistas, e a música pop com seu perfeito álbum de estreia, o Ride, em “Nowhere”, sem o mesmo estardalhaço e sem o hype, surpreendeu a muitos com um perfeito e coeso conjunto de canções tão boas quanto e que também buscavam inspiração nos anos 60, essencialmente nas melodias assobiáveis e harmonias vocais de grupos como The Byrds e Beatles – lembrado já na abertura com a linha de baixo de “Seagull” e sua aproximação com “Taxman” (do álbum Revolver) -, mas temperavam os arranjos com muralhas de guitarras envoltas em distorções, feedbacks e microfonias, seja nos momentos mais explosivos como na citada faixa de abertura ou em “Kaleidoscope” e “Decay”, as faixas mais esporrentas do álbum.

Apesar da tendência de enveredar pelas camadas de barulho, olhando de perto percebe-se que a predominância é de passagens mais melódicas, construídas principalmente com o uso da Rickenbacker de Andy Bell. Nesses momentos, o grupo consegue esculpir uma obra prima na quase balada “Vapour Trail”: “Você é meu rastro de vapor em um profundo céu azul”. De autoria de Andy, é uma das canções mais belas da banda e também dos anos 90.

Não há como não sonhar com o cadenciamento hipnótico e texturas melódicas de “In A Different Place”. Enquanto arrancam “lágrimas de pedras” na subestimadamente emocionante “Paralysed”, onde a mescla melodia e barulho atinge os pontos mais altos, enquanto se encharca em efeitos fuzz e wah-wahs.

Importante lembrar que a banda havia sido formada cerca de dois anos antes, em 1988, e que ‘Nowhere’ foi precedido por três bons EP’s, todos em 90 (Ride, Play e Fall). A banda vivia num período tão prolífico que, das faixas que entraram na versão final do álbum em vinil, apenas “Seagull” já havia sido lançada, no EP Fall. E, com certeza, foram os anos mais luminosos do quarteto.

Sediados na mítica gravadora Creation Records, de onde saíram nomes importantes da cena musical britânica e mundial como The Jesus and Mary Chain, Primal Scream, Slowdive, The House of Love e tantos outros, o Ride, junto com o My Bloody Valentine e o Slowdive, é considerado um dos pilares do que se convencionou chamar de Shoegaze, junto com Lush, Moose, Swervedriver, Pale Saints, Catherine Wheel, Chapterhouse e Boo Radleys.

Gravado por Mark Waterman e mixado por Alan Moulder, que posteriormente produziria trabalhos de um monte de gente do meio alternativo, Nowhere foi oficialmente lançado no dia 15 de outubro de 1990, há exatos 30 anos. Sua capa, uma fotografia de Warren Bolster, mostra um mar aparentemente tranquilo em tons azulados e com uma leve ondulação. Ela capta de forma perfeita a música do grupo, equilibrada entre placidez melódica e tempestades de barulho.

+++ Na coluna CLÁSSICOS, leia sobre ‘Daydream Nation’, do Sonic Youth

Poucas bandas conseguem já em seu álbum de estreia alcançar um patamar tão elevado que tudo que venham a lançar na sequência seja sempre comparado com seu debut, o Ride entra nesse panteão, ‘Nowhere’ é disco de estreia grandioso, um clássico.

 

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