CIDADE DE DEUS: 10 ANOS DEPOIS (2013)


“Documentário sobre Cidade de Deus é um retrato humano e sincero”

Passados mais de dez anos, o filme brasileiro de maior sucesso dos últimos anos, “Cidade de Deus”, inaugurou no cinema nacional um estilo cinematográfico que originou vários filmes, alguns de sucesso de público e critica como os “Tropa de Elite”, de José Padilha, e outros nem tanto, como “Bróder”, de Jefferson De; e “Linha de Passe”, de Daniela Thomas e Walter Salles, que foram sucesso apenas de crítica.

Com um elenco formado em sua grande maioria por atores desconhecidos, grande parte deles oriundos de comunidades do Rio de Janeiro, esses jovens tiveram suas carreiras impulsionadas pelo bom desempenho do filme, dentro e fora do país. Com o passar do tempo, esses jovens atores perceberam que para manterem a visibilidade e sucesso na carreira não seria suficiente terem participado de “Cidade de Deus”, pois ia além da presença na tela grande e o reconhecimento de ter trabalhado numa produção de sucesso.

Vencedor de alguns prêmios e exibido em cinquenta festivais no Brasil e no exterior, o documentário “Cidade de Deus: 10 Anos Depois” procura mostrar em aproximadamente setenta minutos os diferentes resultados e transformações vividas por esses atores e o que mudou em suas vidas ao longo da última década após a repercussão mundial do filme de Meirelles. Mostra o que aconteceu com boa parte do elenco do longa, sempre com o objetivo de responder a seguinte pergunta: será que uma obra de arte pode mudar a vida de alguém?

Para apresentar o que aconteceu com esses atores, os diretores Cavi Borges e Luciano Vidigal (que participou como ator no filme) contaram com a ajuda do idealizador de “Cidade de Deus”, Fernando Meirelles, que não fez restrição alguma ao documentário da dupla, sendo fundamental em direcionar os jovens diretores a pessoas que poderiam ajudar no projeto, além de ceder trechos do filme sem nenhum custo. O diretor inclusive não quis entrar como produtor, porque achou que seria estranho fazer parte da equipe de um documentário que iria falar sobre um filme seu.

O documentário não tenta pintar com cores alegres a realidade daqueles atores, que um dia brilharam na tela, mas simplesmente apresentar a realidade cinza da vida da maioria desses jovens e as agruras fora da grande mídia.

Com poucos recursos disponíveis para a produção, apoia-se basicamente nos depoimentos dos atores para a câmera, onde vão discorrendo sobre a experiência de terem participado de um filme de tanto sucesso comercial e de crítica, mas que não obtiveram o retorno esperado. O documentário acaba sendo direcionado para mostrar o quão grande foi o choque sócio-cultural que estes atores passaram, suas expectativas (que na maioria das vezes não foram concretizadas) em poder mudar de vida e trazer um conforto melhor para suas famílias.

Com uma análise minuciosa, o documentário cita até o valor recebido por cada ator, o que fizeram com este dinheiro, e principalmente o pós filme, como suas vidas mudaram ou não depois do sucesso momentâneo. A abordagem utilizada, exigência de Luciano Vidigal, busca retratar os dois lados da moeda, mostrando tudo o que pode acontecer a um ator após o sucesso repentino. Nas palavras do ator/diretor: “Queria, com esse trabalho, mostrar a seus vizinhos que a fama não é o caminho para a felicidade”. – palavras de Vidigal.

Alice Braga e Seu Jorge comentam como o filme abriu as portas para o cinema comercial de Hollywood, contribuindo para darem o pontapé inicial em suas carreiras internacionais. Em contrapartida, ver Alexandre Rodrigues e Leandro Firmino da Hora se arrependerem das escolhas que fizeram de receber o cachê ao invés de participação nos lucros do filme é de chorar de rir. E de tristeza, com outros atores, que tiveram a vida imitando a arte, partindo para a marginalidade.

Os diretores não se preocupam em fazer pregações, narrações em off e nem intervenções, evitando com isso editorializações. Em momento algum se mostram desonestos com o espectador, tentando induzir a se posicionar de um lado da história, jamais forçando ou soando manipuladores.

Nem tudo são flores. Devido a escassez de recursos, como é de praxe no cinema nacional, fica a sensação de incompletude, principalmente devido a falta de mais depoimentos, incluindo-se o do ator Matheus Nachtergaele, do diretor Fernando Meirelles, além de Katia Lund e Fátima Toledo (responsáveis por preparar o elenco), que poderiam falar sobre os percalços de se trabalhar com um elenco tão grande de atores principiantes.

“Cidade de Deus 10 Anos Depois” não é perfeito, mas traça um paralelo interessante sobre os dez anos que o Brasil presenciou um crescimento econômico e social e como esse crescimento afetou a vida desses atores.

:: NOTA: 7,5

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:: FICHA TÉCNICA:

Gênero: Documentário
Duração: 1h10min
Direção: Cavi Borges, Luciano Vidigal
Roteiro: Gustavo Melo, Luís Lomenha do Nascimento, Luciano Vidigal
Elenco: Alice Braga, Seu Jorge, Leandro Firmino, Douglas Silva, Thiago Martins
Lançamento: 05 de dezembro de 2015
Censura: 14 Anos
IMDB: Cidade de Deus: 10 Anos Depois

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:: Assista abaixo ao trailer do documentário:

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