O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO (The Killing of a Sacred Deer, 2017)


“O terror psicológico em sua expressão mais incômoda, estranha, eficaz e sublime”

Muitos se queixam da mesmice e da falta de criatividade do cinema atual, mas quando foi a ultima vez que realmente nos permitimos experimentar algo que nos tire da zona de conforto?

“O Sacrifício do Cervo Sagrado” é um desses filmes diferentes e provocativos, cheio de nuances e significados, mas que nem por isso se torna difícil de entender. Muito pelo contrário, a história é até bem simples.

Nela, acompanhamos um notório cirurgião cardíaco, vivido pelo Colin Farrel, um homem devotado a sua bela esposa e a seu casal de filhos, vividos pelos ótimos Nicole Kidman, Raffey Cassidy e Sunny Suljic. Porém o que sua família não sabe, é que o médico vem mantendo estranhos encontros com o filho adolescente de um de seus pacientes que veio a óbito durante uma cirurgia. O rapaz, vivido pelo excelente ator, Barry Keoghan, parece nutrir uma forte obsessão pelo médico, que ao perceber isso, tenta se afastar a fim de preservar sua família, porém todos os seus esforços parecem ser em vão.

Dirigido pelo sempre autoral diretor grego, Yorgos Lanthimos, assim como em seus filmes anteriores, “Dente Canino” (2009) e “O Lagosta” (2015) – esse último também com Farrel -, “O Sacrifício do Cervo Sagrado” se passa em uma sociedade fria, com personagens que agem quase que roboticamente, vivendo situações inusitadas que causam extremo desconforto e tensão. Destaque para a importância dos enquadramentos incomuns, e o uso dos grandes planos gerais, para maior efeito dessa sensação de incômodo e também distanciamento.

O desconforto não fica apenas no desenrolar da história, mas na trilha sonora composta por acordes agudos dissonantes e por tambores e violinos desafinados.

Os diálogos também causam desconforto, como se os atores fossem convidados a “não interpretar” e soam calculadamente artificiais, como se todos os personagens estivessem escondendo suas emoções e intenções, assim como o roteiro faz com o público, incluindo apenas um único diálogo expositivo durante todo o filme. Assim acompanhamos atônitos, a implosão de cada um dos personagens, diante da inevitabilidade de uma tragédia anunciada, como uma profecia que se cumpre implacavelmente.

“O Sacrifício do Cervo Sagrado” busca inspiração na antiga tragédia grega de Ifigênia para nos falar sobre as relações de causa e efeito, vingança, justiça, culpa e, principalmente, sobre a atrofia moral de uma sociedade que tem medo de admitir e enfrentar seus próprios erros. Tudo isso aso olhos atentos e naturalistas do diretor, que por muitas vezes lembra o genial Stanley Kubrick, pelo jeito calmo de movimentar a câmera, seguindo os personagens com a mesma cadência de seus passos rumo ao desconhecido, pois na realidade proposta pelo filme, somos levados a um estado cada vez maior de suspensão da descrença.

Esse estado de suspensão é primordial para o filme funcionar, pois algumas situações beiram a falta de lógica e as explicações passam longe do didatismo bobo de Hollywood. Quem aceitar embarcar na história, verá um dos mais instigantes e melhores filmes de terror psicológico dos últimos anos, pena que esse desprendimento definitivamente não é para todos.

:: NOTA: 9,0

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:: FICHA TÉCNICA:

Gênero: Drama, Suspense, Thriller
Duração: 2h01min
Direção: Yorgos Lanthimos
Roteiro: Yorgos Lanthimos, Efthymis Filippou
Elenco: Colin Farrell, Nicole Kidman, Barry Keoghan, Raffey Cassidy e outros.
Lançamento: o8 de fevereiro de 2018 (Brasil)
Censura: 16 anos
IMDB: O Sacrifício do Cervo Sagrado
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:: Assista abaixo ao trailer do filme:

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