UM SHOW DE ROCK E AS LEMBRANÇAS DOS ANOS 80…


Sofie Jell

(OU O QUE DEVERIA SER UMA RESENHA SOBRE O SHOW DAS BANDAS CONJURA, SOFIE JELL E IORIGUN)

Nos anos oitenta (87/88) shows de rock na cidade eram escassos e sempre acontecia algum problema, seja de banda com banda, banda com público ou público com público mesmo. Alguns eventos nem mesmo chegavam ao fim, por conta desses e de outros problemas. Somado a isso, o havia muito amadorismo. Mas nem por isso deixávamos de ir a um SHOW DE ROCK. Era certeza de encontrar todos os amigos lá, de ir com alguns deles, quase sempre a pé. Mas saber que haveria um show de rock era uma espécie de chamado.

Lá estaria um pessoal que queria fugir da mesmice da cidade: alguns curiosos, os pseudo-punks (que sempre provocavam alguma confusão) e o pessoal que curtia rock mesmo, que gostava de se embriagar com guitarras distorcidas e agitar muito com cada canção ou apenas agitar para extravasar, botar pra fora uma série de “coisas ruins” do dia-a-dia.

Traço um paralelo entre o ontem (década de 80) e o hoje (2018) e faço a ligação com uma resposta dada por uma garota com quem conversei no show de ontem na Cúpula do Som, quando lhe perguntei o que a motivava a ir a um show de rock: “Estar num show de rock me permite ser eu mesma”.

As respostas para essa minha pergunta poderiam ser as mais variadas possíveis, mas conversei com poucas pessoas presentes no espaço para ver três bandas da cidade apresentarem seus repertórios: a recém formada Conjura (um duo), a já estabelecida Sofie Jell (um trio) e a surpreendente Iorigun (um quarteto).

Dos amigos de outrora, apenas um.

Onde estariam os outros? Perguntei a mim mesmo várias vezes antes do teor alcoólico alcançar um nível suficiente para fazer esquecer essas e outras perguntas mais que ficavam rodopiando pela cabeça, antes de apenas sentir-me vivo, quase aquele adolescente de decadas atrás, sentir-me…eu mesmo, estando num SHOW DE ROCK, passados cerca de trinta anos desde os meus primeiros.

E onde estariam os outros jovens que também gostam desse troço chamado “rock doido”?

Onde estariam aqueles que reclamam que a cidade não tem opções para quem não quer fazer o lugar comum de barzinhos com voz e violão e similares? Onde estariam o restante dos fãs de rock da cidade?

Que importa?

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Pro momento, importa quem está presente. Importa quem se importa. Importa quem quer voltar pra casa com o ouvido zumbindo. Importa quem quer sair no sábado à noite e ouvir guitarras distorcidas rasgando o ambiente, cozinha potente chacoalhando as paredes e convidando para dançar.

O duo Conjura eram os “calouros” da noite, entre aspas porque Tauan (guitarra/voz) já participou de diversas bandas antes. Os outros 50% é a baterista Taísla Araújo. Fizeram um set curto, e uma apresentação um tanto tensa, com quatro músicas próprias e um cover de Pitty. Detalhe para o final inusitadamente caótico, com Tauan soltando a guitarra a barulheira no controle dos pedais e colocando o surdo no meio da plateia um tanto surpresa.

A segunda banda foi a Sofie Jell, substituindo a desistente Casapronta. Apresentaram sua música de tons noventistas que une uma cozinha pesada com riffs de guitarra embalados em distorção, em conexão direta com bandas grunge e pós-grunge. Tecnicamente uma banda entrosada, com perfeito domínio do que estão fazendo. Apresentaram um repertório de treze faixas e fizeram alguns “dançarem”. Às vezes sinto falta de uma segunda guitarra em algumas canções deles.

Já era domingo quando Iorigun iniciou com sua música repleta de energia e indução à dança, embalada pela cozinha pulsante e guitarras viajantes que dialogam em efeitos de delay/distorção/reverb. Em relação ao último show que vi, um teclado Korg agora faz parte do aparato da banda, permitindo explorar novas sonoridades. Fizeram, mais uma vez, um show empolgante com total entrega, principalmente do vocalista Iuri. Em uma das canções Leinne (Diabeth) subiu ao palco para cantar com a banda. Foi o show com maior interação do público, apesar das duas da madrugada se aproximando.

Volto ao início do texto e afirmo, não com saudosismo mas como constatação, de que não havia eventos assim nos anos 80. Tem seus pontos positivos, sim, a maioria, mas ainda há alguns negativos, a atitude um tanto blasé de grande parte do público é um deles. São outros tempos, outra geração, não reclamo, apenas constato.

Finalizo perguntando: Onde vocês estão, meus amigos? Onde vocês estão, fãs de rock’n’roll?

PS: Que fique claro, não estou aqui para julgar, talvez para provocar, ou apenas para que não me sinta sozinho em minha “loucura adolescente”.

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