O CONTO DA AIA (The Handmaid’s Tale, 2017)


“Melhor nunca significa melhor para todo mundo. Sempre significa pior, para alguns.” (Fred Waterford)

Os Estados Unidos da América já não existe, o presidente foi assassinado e o Congresso explodido por fundamentalistas religiosos que através da força das armas impuseram a República de Gilead, onde as leis são baseadas no Velho Testamento, e a Constituição foi abolida.

É nesse futuro distópico, que se passa a série “The Handmaid’s Tale” (O Conto da Aia), baseado no romance de 1985 da escritora canadense Margaret Atwood. O livro inclusive já havia ganhado uma adaptação para o cinema e 1990, com Robert Duvall no elenco.

Já no início, acompanhamos uma família (pai, filha e mãe) em fuga de carro por uma rodovia, até sofrerem um acidente que impede que sigam adiante. Ali estão aqueles que serão os protagonistas da série: Luke (O-T Fagbenle), Hannah (Jordana Blake) e June (Elisabeth Moss), a aia do título, que irá contar sua trajetória e a de como a nação que sucumbiu ao extremismo que enforca padres, médicos e , que queima livros, que não tolera homossexuais, e que legalizou o estupro para fins de reprodução usando como base o trecho da Bíblia em Gênesis 30:1.

No futuro retratado pela série, devido a circunstâncias diversas, parte das mulheres ficaram estéreis, principalmente as esposas dos comandantes, homens de grande poder e influência dentro dessa sociedade, os chamados Filhos de Jacó que tomaram o poder. Como solução, criaram a figura das aias, mulheres férteis que são obrigadas pelo Estado a se submeterem como reprodutoras das famílias desses comandantes.

Para “suavizarem” o ato e tornar socialmente aceito, inclusive pelas esposas, chamam de cerimônia. Criaram então uma ritual, que inclui a esposa sentar-se na cama e segurar a aia pelos braços enquanto o marido a estupra, não sem antes a leitura de um trecho da Bíblia. Essa cerimônia se repete por alguns dias, durante o período fértil da aia, até que a mesma engravide. As aias passam por um treinamento (que mais parece adestramento) nos centros antes de irem para as casas.

June, assim como todas as aias, a partir do momento que vai para a nova casa passa a se chamar Offred, junção do primeiro nome do comandante, no caso Fred, com a preposição “Of”. As aias não são donas de si, de seu corpo, de suas vontades, mas das de seus senhores. Passam a ser meros objetos usados para reprodução, para dar um filho às famílias dos comandantes e isso, como aos poucos vai sendo revelado, segue num ciclo contínuo, com a aia servindo a diversas famílias.

A história de June é centrada na Família Waterford: Fred (Joseph Fiennes) e Serena Joy (Yvonne Strahovski), e nos empregados da casa: Nick (Max Minghella) e Rita (Amanda Brugel), que é a Martha da casa – as Marthas fazem o papel das empregadas domésticas, inclusive fazem pão de forma artesanal, “um regresso aos costumes tradicionais…é por isso que eles lutaram”, dirá June em determinado momento.

Após sofrer e ver as outras sofrerem com a brutal formação pela qual passam as aias nos centros, rigidamente mantidos pelas “uncles” (tias), o que June mais quer é ser uma aia dedicada e que não cause problemas por medo das consequências, e consegue durante boa parte do tempo. Mas aos poucos ela vai saindo do entorpecimento inicial e se tornando mais forte e consciente da situação terrível em que se encontra ela e seu país, partindo da aceitação para a revolta, da passividade para a luta. Inclusive testemunhando o quanto de hipocrisia e mentira existe abaixo da superfície das aparências da sociedade de Gileade, representado principalmente nas atitudes de Fred e Serena.

Gilead é uma sociedade totalmente machista e, como toda ditadura, com seus homens armados de fuzis protegendo a cidade – e representada por seus “puritanos” comandantes -, não tolera quaisquer sinais de “desvios” de quem quer que seja, podendo punir não só com enforcamento, mas também com mutilação, inclusive sexual, ou trabalhos forçados nas colônias. Para manter tudo em seus conformes, contam não só com as próprias pessoas espionando umas às outras, como também com um grupo de pessoas chamadas olhos e ouvidos, espiões disfarçados.

Um dos pontos que a série mostra com contundência é a intolerância de Gilead em formas diversas: religiosa, política, de gênero, etc.

Embora os primeiros episódios sejam um tanto restritos a um único núcleo, o que torna o andamento lento, mas também instigante, aos poucos a série vai expandindo os horizontes e mostrando como chegou se naquele estado de coisas, inclusive utilizando bastante o recurso do flashback tanto de June quanto de outros personagens, de forma a mostrar o passado destes e suas motivações. Chama a atenção, por exemplo, a falta de aparatos tecnológicos como televisão na casa dos Waterford, embora Fred tenha um notebook em seu escritório.

Quanto ao trabalho de interpretação de Elisabeth Moss (que já o havia mostrado na série Mad Men), é não menos que brilhante, ela consegue transmitir a gama de sentimentos de sua personagem com um simples olhar, e mesmo a mudança com o uso das expressões faciais. Ela ganhou o Golden Globe de melhor atriz e série de ficção.

Destaca-se também a bela fotografia, com ênfase em tons frios e o uso de predominante de cores neutras principalmente o preto (carros, roupas dos guardas e dos comandantes), cinza (prédios, tias e população em geral), e o branco, que nas cenas no hospital, por exemplo, chega a incomodar. Nesse cenário de cores “mortas”, chama a atenção e gera um grande contraste o vermelho da vestimenta das aias. Até a roupa das esposas são em tons claros de verde ou azul.

“The Handmaid’s Tale” é o tipo de série que a todo momento faz o espectador se posicionar e se incomodar com o que pode parecer absurdo, serve como alerta para qualquer sociedade em relação aos seus posicionamentos, a sua incapacidade de aceitar e conviver com o “diferente” ou que seja contrário aos padrões estabelecidos. E mais, para se estar atento aos discursos que vendem proteção em troca de nossa liberdade, algo mostrado de forma contundente também em “V de Vingança”

Apesar de ficcional, fala muito sobre a nossa sociedade (de forma geral), não é de todo impossível de acontecer (muitas coisas já acontecem), pois em nome de Deus, da pátria, da família e dos “bons costumes”, os homens são capazes de cometer e justificar as maiores atrocidades.

NOTA: 9,5

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:: FICHA TÉCNICA:
Emissora (EUA): Hulu (Paramount Channel no Brasil)
Temporadas: 2 (2ª em andamento)
Episódios / Tempo: 10 (cada um com um tempo entre 46 a 60 minutos)
Criador: Bruce Miller (BAseado no Romance de Margaret Atwood)
Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, O-T Fagbenle, Yvonne Strahovski, Max Minghella, Madeline Brewer e outros.
Temáticas: Drama, Ficção, Distopia
Censura: 16 anos
IMDB: O Conto da Aia

 

 

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:: Assista abaixo ao trailer da primeira temporada:

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